Maputo, 2 de Dezembro de 2025 — O sector da comunicação social moçambicano foi alvo de uma avaliação crítica numa mesa-redonda realizada esta terça-feira, em Maputo, por um consórcio composto pelo MISA MOÇAMBIQUE, MIDIALAB E FORCOM com o apoio do International Media Support (IMS). A iniciativa, enquadrada-se nos 16 Dias de Activismo Contra a Violência Baseada no Género, teve como ponto alto a apresentação de uma auditoria que revela profundas lacunas de género no quadro legal e nas práticas editoriais do país.
Os
organizadores alertaram para a persistência de desigualdades que atingem de
forma transversal as mulheres jornalistas — desde baixa representatividade
em cargos de decisão, passando por estereótipos recorrentes nos
conteúdos, até assédio e violência digital sem resposta institucional
adequada.
“Jornalistas ameaçadas, espancadas e intimidadas”
Na
abertura, Ferosa Abel Chaúque, Directora Executiva do FORCOM, destacou o
contexto de vulnerabilidade vivido sobretudo durante períodos eleitorais:
“As
jornalistas, sobretudo das rádios comunitárias, são ameaçadas, espancadas,
intimidadas e têm os seus equipamentos arrancados.”
Chaúque
defendeu mecanismos preventivos e políticas internas robustas para
garantir segurança e dignidade profissional.
Também
presente, Michele Pela, chefe da equipa de Governação da Delegação da
União Europeia, reafirmou o compromisso do bloco com os direitos humanos e a
liberdade de imprensa:
“Um
jornalismo sensível ao género contribui para uma representação mais equilibrada
de mulheres e homens e para ambientes seguros nas redacções.”
Já Simbiso Marimbe,Gestora de Programas do IMS, classificou o evento como um momento crucial na luta pela igualdade no sector mediático:
“Estamos
unidos para pôr fim à violência digital contra todas as mulheres e raparigas.”
Auditoria expõe avanços legais, mas “silêncios preocupantes” persistem
A Dr.ᵃ
Delma Comissário, responsável pelo estudo, observou que o país possui
instrumentos internacionais que suportam a igualdade de género e que a revisão
da Lei de Comunicação Social constitui uma oportunidade política “para integrar
esta agenda”.
Ainda
assim, sublinhou falhas graves:
- A proposta de lei não
menciona o princípio da igualdade de género.
- Não existe referência à
proibição do assédio no sector.
- Não há normas ou protocolos
oficiais de segurança para mulheres jornalistas.
- A representação feminina no
conteúdo e nas redacções é ignorada.
“Há um
silêncio geral sobre género nas redacções e no jornalismo que se produz”,
alertou.
Mais mulheres nas redacções, mas quase sem poder
O estudo
demonstra progressos quantitativos, mas que não se traduzem em liderança:
|
Indicador |
Situação Actual |
|
Participação
feminina nas redacções |
Cresceu
de 18% (2022) para 62% (2023) |
|
Ocupação
de cargos de liderança |
Apenas
1 em cada 10 é mulher; |
|
Assédio |
“Generalizado
e naturalizado”; denúncia é desincentivada; |
Além
disso, a violência digital assume contornos cada vez mais graves: ataques
coordenados, difusão abusiva de imagens, ameaças e doxing tornam o
ciberespaço um ambiente hostil e sem protecção jurídica efectiva.
“A
desigualdade está sistematizada e institucionalizada”, concluiu Delma.
Apelo a reformas urgentes e ações permanentes
No
encerramento, os organizadores defenderam uma transformação estrutural que
ultrapasse a extensão simbólica da campanha dos 16 Dias:
Recomendações-chave
- Adopção de políticas
internas contra o assédio em todas as entidades de media
- Criação de normas
editoriais sensíveis ao género
- Reforço de medidas de protecção
e bem-estar das jornalistas, dentro e fora das redacções
- Inclusão explícita da igualdade
de género na legislação do sector
A
expectativa é de que estas iniciativas ganhem força contínua, garantindo
condições dignas para o exercício da profissão e progressos reais na igualdade
de género.
O jornalismo só será verdadeiramente livre quando todas as mulheres puderem exercê-lo sem medo.



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