MINISTRO DA DEFESA PEDE NARRATIVAS MAIS APELATIVAS CONTRA O TERRORISMO

 Treze anos após o início do conflito armado em Cabo Delgado, o discurso oficial do Governo procura mudar de tom. O ministro da Defesa Nacional, Cristóvão Chume, defendeu esta semana que a imprensa moçambicana deve adoptar narrativas mais “apelativas e construtivas” sobre a situação de segurança no Norte do país, com o objetivo de não afastar potenciais investidores nacionais e estrangeiros.

Durante uma conferência de imprensa em Maputo, o titular da Defesa lamentou o que considera ser uma tendência de parte dos órgãos de comunicação social em destacar apenas os episódios de violência e ataques terroristas, em detrimento das conquistas das Forças de Defesa e Segurança (FDS). Segundo Chume, essa “narrativa antipatriótica” acaba por projectar uma imagem de instabilidade permanente, “afugentando investimentos e desmotivando o próprio cidadão moçambicano”.

“Há quatro ou cinco anos, tínhamos praias e áreas administrativas ocupadas pelos terroristas. Hoje não há nenhum ponto onde possamos dizer que eles estão a governar ou a impor a sua sharia. Os terroristas estão a correr em todo lado”, afirmou o ministro.

Chume insistiu que a imprensa deve transmitir esta mudança no terreno, destacando o progresso registado no Teatro Operacional Norte. “É preciso mostrar que Moçambique é viável, que Cabo Delgado é uma província viável para investir. É esta a mensagem que precisamos de passar”, reforçou.



O governante recordou que outros países com longos históricos de insegurança e criminalidade conseguem projectar uma “fotografia positiva” de si próprios para garantir a continuidade dos investimentos. “Enquanto os outros países discutem casos de sucesso, nós continuamos a empurrar investidores para fora das nossas fronteiras. Estamos a meter medo às populações e a fechar portas ao desenvolvimento”, criticou.

De acordo com o ministro, a estratégia comunicacional sobre Cabo Delgado deve priorizar o optimismo responsável, sem negar os desafios, mas sublinhando os avanços. “As nações mais evoluídas também enfrentam terrorismo e tráfico de drogas. A diferença é que eles não transformam esses problemas em etiquetas permanentes. Nós, infelizmente, estamos a colocar o país como centro do ‘turismo internacional’ da má notícia”, ironizou.

Chume apontou ainda exemplos de recuperação económica na província, com destaque para os investimentos retomados nos sectores do turismo, da agricultura e da educação. “Enquanto muitos falam de expansão do terrorismo, o que se vê no terreno é o aumento da confiança dos investidores. Em Afungi, por exemplo, passámos de cerca de mil trabalhadores para mais de quatro mil actualmente. Que país, em guerra, veria esse tipo de crescimento?”, questionou.

O ministro apelou para que os jornalistas façam parte do esforço nacional de reconstrução de Cabo Delgado, divulgando histórias de superação e resiliência das populações e das forças de segurança. “Temos de mudar a narrativa, mostrar que o país está a avançar. Os jovens moçambicanos precisam de acreditar que podem trabalhar e viver em Cabo Delgado, em paz e com dignidade”, concluiu.

Apesar de reconhecer que ainda ocorrem ataques esporádicos em algumas zonas da província, Chume garantiu que o sector da Defesa e Segurança mantém o controlo das principais áreas e que a coordenação com os parceiros internacionais continua firme. “Há desafios, mas há também vitórias que merecem ser contadas. O país precisa de acreditar em si mesmo”, disse.

A posição do ministro surge num contexto em que o Governo tenta equilibrar o discurso entre a necessidade de transparência informativa e o esforço de atrair novamente grandes investidores, como a TotalEnergies, cujos projectos de gás natural em Afungi permanecem entre os mais estratégicos para a economia moçambicana.

Enquanto isso, as redacções continuam divididas entre o dever de informar e o apelo governamental à “narrativa positiva”. A tensão entre a liberdade de imprensa e a diplomacia económica volta, assim, ao centro do debate público sobre o papel dos “media” num país que ainda tenta compreender a complexa geografia do seu próprio conflito.

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