Xi e Trump reúnem-se em Busan para estabilizar laços e restaurar a confiança global


Sob o olhar atento do mundo e os flashes das câmaras, o Presidente da China, Xi Jinping, e o seu homólogo norte-americano, Donald Trump, apertaram as mãos esta quinta-feira, em Busan, na Coreia do Sul, num encontro aguardado com grande expectativa — o primeiro desde que Trump voltou a assumir o cargo de Presidente dos Estados Unidos, no início deste ano.

Após uma reunião de cerca de 100 minutos, os dois líderes deixaram o local lado a lado, encerrando um encontro que muitos analistas consideram decisivo para o rumo da relação sino-americana e para a recuperação da confiança na economia mundial.


Definir o rumo das relações

Desde que Trump regressou à Casa Branca, em Janeiro, os dois chefes de Estado mantiveram uma comunicação regular por telefone e por carta. Durante o encontro, Xi sublinhou que, sob a orientação de ambos, as relações entre a China e os Estados Unidos “mantiveram-se, no geral, estáveis”.

“Perante ventos e ondas, devemos manter o rumo certo e garantir que o grande navio das relações sino-americanas siga em frente de forma estável”, afirmou Xi.

Trump, por seu lado, declarou que as relações entre os dois países “sempre foram fortes e continuarão a melhorar”, manifestando esperança num “futuro partilhado mais promissor”.

A metáfora usada por Xi — a do “grande navio das relações sino-americanas” — não é nova. Em Junho, após uma reunião económica de alto nível entre as duas potências em Genebra, Xi já havia insistido na importância de evitar “perturbações e distrações” no relacionamento bilateral e de aproveitar os mecanismos de consulta existentes para alcançar resultados de benefício mútuo.

Segundo Gu Qingyang, professor associado na Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew da Universidade Nacional de Singapura, o relacionamento entre a China e os EUA deve “reflectir o espírito de uma nova era”. Para o académico, o chamado “dilema de Tucídides”, que sugere uma confrontação inevitável entre uma potência estabelecida e uma emergente, “não é um destino incontornável”.

“Não queremos ver China e Estados Unidos divididos, desconectados ou em confronto. São dois países demasiado influentes para se ignorarem mutuamente”, afirmou Gu.

Na véspera do encontro de Busan, as equipas económicas e comerciais dos dois países reuniram-se em Kuala Lumpur, Malásia, e chegaram a um consenso de base sobre várias questões prioritárias. Xi defendeu que as partes “devem implementar rapidamente as medidas acordadas” e transformar “os entendimentos comuns em resultados concretos” para reforçar a confiança bilateral e global.

Em nota à agência Xinhua, Maya Majueran, directora-fundadora da Belt and Road Initiative Sri Lanka, considerou que o encontro “transmitiu uma mensagem de confiança”, mostrando que as duas maiores economias do mundo “pretendem gerir a relação com responsabilidade, e não deslizar para a confrontação”.

Tom Watkins, antigo conselheiro do Michigan-China Innovation Center, acrescentou que o “respeito mútuo é a chave” para o futuro da relação. “Qualquer erro de cálculo poderá ter consequências devastadoras. Ainda assim, ao longo das décadas, ambos os lados têm sabido seguir em frente com sensatez”, disse.


Impacto mais amplo na Ásia-Pacífico e no mundo

Num contexto global de incertezas crescentes e tendências protecionistas em alta, a Ásia-Pacífico enfrenta igualmente pressões económicas e tensões geopolíticas. O apelo de Xi ao diálogo em vez da confrontação ecoou muito além da sala de reuniões em Busan.

O líder chinês frisou que as relações económicas e comerciais devem continuar a ser “o pilar e o motor” das relações bilaterais — e não um obstáculo. “As partes devem pensar em grande e compreender que a cooperação traz benefícios a longo prazo; não podem cair num ciclo vicioso de retaliações mútuas”, afirmou.

O Ministério do Comércio da China anunciou, na quinta-feira, os resultados das conversações em Kuala Lumpur. Entre as medidas, os Estados Unidos comprometeram-se a cancelar a tarifa de 10% sobre produtos classificados como “fentanil” e a suspender por um ano a tarifa recíproca de 24% sobre mercadorias chinesas, incluindo as oriundas das Regiões Administrativas Especiais de Hong Kong e Macau.

Em contrapartida, a China ajustará as suas contramedidas e manterá algumas isenções tarifárias. Washington também suspenderá, por um ano, a aplicação de uma regra anunciada a 29 de Setembro que alargava restrições de exportação a empresas com 50% ou mais de capital pertencente a entidades sancionadas.

Outros resultados incluem a suspensão, por parte dos EUA, de medidas da investigação “Secção 301” contra as indústrias marítima, logística e naval da China — com Pequim a comprometer-se a fazer o mesmo, assim que a suspensão americana entrar em vigor.

Analistas da região Ásia-Pacífico consideram este resultado “necessário e oportuno”. Para Majueran, a visão chinesa “rejeita a lógica de soma zero” e aposta num modelo de cooperação “ganha-ganha”.

Eng Kok Thay, secretário de Estado do Conselho de Ministros do Camboja, destacou que o encontro “abre espaço para a redução de tensões e o regresso ao diálogo como via de resolução de divergências”.

Durante a reunião, Xi enfatizou que “o mundo enfrenta numerosos desafios” e que China e Estados Unidos “devem assumir a sua responsabilidade como grandes potências” e “trabalhar em conjunto para alcançar feitos concretos em benefício dos dois povos e da humanidade”.

“O rumo das relações sino-americanas definirá, em larga medida, o ambiente estratégico e económico da Ásia-Pacífico e de todo o mundo”, concluiu Eng Kok Thay. “A cooperação entre as duas nações garante estabilidade comercial, intercâmbio tecnológico e segurança — benefícios que se estendem muito para além da região.”

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