No estúdio do popular podcast “MOZPOD — Os Muito Maus”, o apresentador (| Ismail Essak / Chairman
/ chairman.iessak ) recebeu Dinis Tivane, figura que se tornou
rapidamente um dos pilares do maior partido da oposição actual de Moçambique, o
Anamola. Tivane, que o apresentador considera o “número dois” do partido,
sentou-se para uma conversa profunda que expôs a sua trajectória pessoal, o caminho
espinhoso da política de oposição em Moçambique e a sua visão disruptiva para o
futuro do Estado moçambicano, defendendo que a mudança de regime é necessária
para que a palavra “democracia” ponha “comida na mesa”.A conversa, gravada a 26 de Novembro, começou com o apresentador a destacar a boa impressão causada pelo convidado, a quem descreveu como um “tipo cinco estrelas, alto, cabeludo”.
A Vida do Autodidacta e a Girafa
do Anamola
O moderador abriu a entrevista pedindo a Tivane que se apresentasse:
MODERADOR: Dinis, bem-vindo aqui ao meu singelo podcast e obrigado por aceitar
este convite para hoje podermos conversar, sabermos mais de ti, mano. Quem é o
Dinis?
DINIS TIVANE: Sou um moçambicano nascido em 1977, dois anos depois da independência.
Não vi a independência, mas senti aquela energia até à altura em que o saudoso
Samora Machel morreu, então chorei também. Não sou nenhum menino de berço duro;
cresci em situações bastante difíceis. Considero-me jovem, já não pela idade,
mas por aquilo que ainda ambiciono fazer. Sou pai de duas filhas lindas. Sou
mais autodidacta.
Tivane detalhou a sua formação multifacetada, explicando que a sua
profissão principal é design, área que estudou sozinho ao longo dos
anos. A sua primeira faculdade foi Arquitectura, que abandonou ao
terceiro ano por falta de condições. Concluiu Jornalismo (a sua primeira
licenciatura), mas não o exerceu porque não dava dinheiro naquele
período (1999–2003).
DINIS TIVANE: Trabalhei como fumigador aos 17 anos, que foi um dos melhores negócios
que fiz na altura. Depois licenciei-me em Jornalismo e mais tarde fiz Recursos
Humanos. Com vários desafios, comecei a estudar Direito sozinho, lendo e
comprando livros, incluindo o próprio Código de Processo Civil. No ano passado
(2024), decidi matricular-me oficialmente em Direito.
MODERADOR: Há uma foto tua que circula a comentar Samora Machel, é isso?
DINIS TIVANE: Aquela foto célebre é do meu pai. Ele fez um discurso em frente a
Samora Machel em 1977, ali onde hoje é o Parlamento. Samora recomendou-lhe
muitas coisas, mas o meu pai afastou-se da vida política activa quando a
Frelimo se descaracterizou muito.
Tivane fez a ponte entre a história do pai e a sua própria trajectória,
revelando que, numa foto recente tirada no Conselho Nacional do Anamola, ao
cumprimentar Venâncio Mondlane recriou a imagem do pai com Samora Machel em
1977.
DINIS TIVANE: Eu olhei para aquela fotografia e disse: “Porra, isto aqui é igual à
fotografia que o meu pai tirou a apertar a mão a Samora Machel”. Eu posso
iconizar isto também, dizendo que apertei a mão a Venâncio Mondlane, “que
vai ser praticamente daqui a 50 anos um dos ícones de Moçambique”.
A Transição do “Cartão Vermelho”
à Oposição Activa
O apresentador quis saber o ponto de viragem que levou Tivane a
abandonar o partido no poder e a aliar-se a Venâncio Mondlane.
MODERADOR: Dinis, como tu entras para a política activa desta forma? Como é que
decidiste que, é pá, agora sou da oposição?
DINIS TIVANE: Eu cresci sem fazer política activa. A ideia surgiu quando completei 40
anos. Senti que as minhas ideias levavam as pessoas a reflectirem.
Tivane tentou ingressar no núcleo da Frelimo no Chamanculo por volta de
2018 e chegou a ter o cartão. Contudo, desistiu rapidamente:
DINIS TIVANE: Desisti porque, contrariamente ao que eu tinha como ideia, percebi que
as dinâmicas internas no partido eram de um retrocesso muito alto. Não havia
muita democracia. Muitas vezes, mesmo essas hierarquias tendiam para resvalos
dos quais eu não concordava.
A aproximação a Venâncio Mondlane deu-se em 2022/2023, quando foi
recomendado como “um tipo aí muito nice” da área de comunicação.
DINIS TIVANE: Falei pela primeira vez com Venâncio em 2023, na época das eleições
autárquicas. Eu disse a ele: “eu tenho cartão vermelho, mas a tua causa vale
a pena”. Não me desvinculei publicamente na altura porque achava que seria
uma traição para a Frelimo, então trabalhei off the record.
Em 2024, quando Mondlane se candidatou, Tivane formalizou o apoio após
uma reunião de quatro horas. Sabia dos riscos, mas avançou, sentindo que,
diante da hesitação e do medo de enfrentar a Frelimo, “se eu não fizesse,
ninguém faria”. O grande momento de visibilidade veio no pós-eleitoral,
quando Mondlane foi para o exílio e ele próprio se tornou a face pública da
luta, juntamente com o falecido Elvino Dias.
A Política Suja e as Traições da
Oposição
A entrevista avançou para as dificuldades enfrentadas pelo Anamola e
pelo seu líder, que já passou pelo MDM, Renamo, CAD e Podemos.
MODERADOR: Vemos as traições, as quebras... Estão no auge, confiantes que vão
concorrer, tudo a acontecer, e puxam-vos o tapete. Vocês caem, levantam-se, vão
à luta de novo. Como foram esses momentos?
Tivane respondeu com frieza:
DINIS TIVANE: Para nós vai ser sempre assim. Não esperamos mais nada senão
supercomplicações. Para nós vai ser sempre mais difícil.
Segundo ele, a oposição tem desempenhado um papel de “verdadeiro
traidor”.
DINIS TIVANE: O MDM submeteu um expediente à CNE que desqualificou Venâncio nas
autárquicas de 2018. No caso do CAD (em 2024), a oposição (MDM, Renamo,
Podemos) percebeu que o CAD iria entrar para o Parlamento e ter
representatividade na CNE.
DINIS TIVANE: O pensamento deles é: se entram estes gajos, um de nós três ou dois
vamos ter de sair. Vai perder o pão. É este o pensamento. A oposição
moçambicana está neste nível, de pensar em picuinices, enquanto a Frelimo se
aproveita da fragilidade.
A última traição veio do Podemos, que procurou o Anamola após a
exclusão do CAD. Contudo, depois das eleições, houve um distanciamento. Tivane
explicou que, numa reunião com o líder do Podemos (Albino Forquilha), Venâncio
Mondlane “nunca pensou em tachos” nem em contrapartidas financeiras ou
políticas, apenas exigiu o cumprimento do acordo coligatório.
DINIS TIVANE: Você percebe o quanto o país perde por pequenices... um bolinho aqui,
uma arrofada ali, um biscoito, e por aí em diante, trava agendas muito maiores.
A recusa do Podemos em adiar a tomada de posse dos seus deputados, mesmo
sabendo que não perderiam o mandato, foi um erro enorme, pois “teria um
grande efeito político” e criaria uma pressão capaz de forçar a Frelimo a
recuar em matérias essenciais.
A Máfia no Estado e a Crítica à
Nata Intelectual
DINIS TIVANE: Muitos intelectuais tentam criar narrativas para “fazer rebaixar
aquilo que é o impacto do Anamola”. Concordam que o Estado moçambicano está
infestado de criminosos, que a alta máfia está dentro do Estado, mas atacam
Mondlane.
Tivane criticou o sociólogo Dr. Elísio Macamo por rotular Mondlane de “populista”
e manipulador de um público mal instruído. Para Tivane, a política é uma
ferramenta de construção social, e é dever do político apontar o que não está
bem.
DINIS TIVANE: Se o teu discurso como intelectual não concorre para resolver esses
problemas estruturais do Estado moçambicano, então você está a fazer a luta
errada.
A entrevista abordou também o tema da bandeira nacional, que para
o Anamola é uma batalha central.
DINIS TIVANE: A bandeira com a AK-47 é a única no mundo com uma arma. Existem
moçambicanos constrangidos ou presos no estrangeiro porque a arma é vista como
símbolo de terrorismo. A bandeira deve ser símbolo de consenso e não de
constrangimento.
Tivane reforçou que a democracia não é uma palavra vazia:
DINIS TIVANE: O voto resolve o problema da fome. Em Moçambique, 2.500 crianças morrem
anualmente por falta de água. Não há responsabilização. Governantes envolvidos
em escândalos de 130 milhões de meticais não são exonerados. Eu próprio fui
intimado pela PGR para prolongar o prazo de instrução criminal.
O Novo Regime e a Esperança de
0,5 em 10
MODERADOR: Achas que o partido no poder acordou e está com uma dinâmica diferente?
DINIS TIVANE: Não há nenhuma melhoria estrutural. A aprovação contínua dos projectos
de gás em Cabo Delgado, enquanto o Estado não consegue proteger o seu próprio
território, mostra prioridades erradas.
Sobre os 50 biliões de dólares anunciados por Daniel Chapo, Tivane foi
directo:
DINIS TIVANE: Não são 50 biliões que vão entrar nos bancos comerciais de Moçambique.
É dinheiro de Estados no papel, que entrará como importação temporária, sem
pagar impostos, para o inglês ver. A minha esperança de 0 a 10 é 0,5.
Tivane lamentou que o Estado moçambicano tenha passado de produtor e
distribuidor para mero comprador.
DINIS TIVANE: A proliferação de chapas significa ausência de Estado. O transporte é
uma obrigação fundamental do Estado.
Segundo ele, as soluções existem e não são complicadas: resolver o
problema das estradas e da segurança.
DINIS TIVANE: Porquê que produzimos 50 kg de ouro por mês e não temos uma indústria
que fabrica jóias? Porquê que Moçambique, com o rubi que tem, não é destino
turístico global? Porque há interesse em mandar vir e ganhar comissão.
O Preço da Luta e o Aliciamento
O moderador quis saber como Tivane lidou com o medo, as perdas e as
tentativas de corrupção.
MODERADOR: Nos dias difíceis, como quando perderam o Elvino Dias ou quando as 24
balas foram disparadas no teu portão, o que te move?
DINIS TIVANE: A causa está muito acima do medo. As reversões políticas só ocorreram
porque houve sangue. Sinto que vale a pena morrer por esta causa.
Além dos tiros (que foram quase 50), Tivane relatou uma invasão na sua
casa, com janelas escancaradas e portas arrombadas, tudo para intimidar.
MODERADOR: Já foste aliciado a trair Venâncio Mondlane?
DINIS TIVANE: Já. Prometeram-me tudo aquilo que eu quisesse, um cheque em branco. O
aliciador era alguém capaz de resolver uma mansão, um Range Rover, uma Land
Cruiser, uma Nissan ou estudos no exterior em menos de 24 horas. Mencionou até
a BMW.
DINIS TIVANE: O sangue do Elvino não pode ser trocado por uma vivenda num condomínio
com um Range Rover.
O entrevistado revelou a sua ambição profunda:
DINIS TIVANE: Gostaria de ser lembrado como um dos primeiros moçambicanos a mostrar
que o povo pode ser feliz em Moçambique, com segurança, saúde e educação.
A Mensagem Final: Os Melhores
Tempos Estão por Vir
No fim, o apresentador pediu a mensagem que “ninguém teve coragem de
dizer”.
DINIS TIVANE: A maior mensagem é que os melhores tempos estão por vir. Os
moçambicanos já estão galvanizados. Já sabemos quem é o nosso inimigo, que é o
regime opressor.
Sobre as eleições de 2028/2029:
DINIS TIVANE: Serão históricas. Se houver tentativa de subverter as eleições, haverá
uma reacção muito enérgica do povo moçambicano. Os moçambicanos estão a dar um
grande exemplo de civismo, suportando o lixo da corrupção e da fraude, mas já
não aguentam.
A conversa encerrou com o moderador a lamentar a inversão de valores no
país, onde saúde, educação e segurança, que eram públicas, tornaram-se esferas
privadas.



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