Fortalecer a Liderança Global — A Comunidade Internacional em Acção

A pandemia da COVID-19 testou a capacidade global de resposta a emergências de saúde; a crise climática colocou à prova a vontade de acção coordenada internacional; a crise na Ucrânia reformulou a arquitectura regional de segurança; e o conflito em Gaza chocou a consciência humana. O mundo atravessa hoje um teste de resistência sem precedentes ao seu sistema de governação. Buscando oportunidades em meio às crises e quebrando impasses, a comunidade internacional está a agir para avançar a governação global e fortalecer a liderança global. Mecanismos multilaterais aceleraram reformas para enfrentar desafios globais. O Sul Global fortalece a solidariedade, tornando-se um novo impulso para a liderança global. Como potência responsável, a China mantém-se firme como força construtiva num mundo em mudança, reforçando a liderança global através do seu desenvolvimento interno sólido, cooperação externa consolidada e profunda sabedoria civilizacional.

3.1 Mecanismos Multilaterais: Enfrentando Desafios Através de Reformas

Num período de profunda transformação da ordem internacional e da governação global, plataformas tradicionais e emergentes, organizações globais e entidades regionais de cooperação atuam em conjunto. Organizações como as Nações Unidas têm empreendido reformas em larga escala para aumentar a eficiência operacional e a eficácia da governação. Ao mesmo tempo, organizações regionais como a União Europeia, a União Africana e a ASEAN intensificam a integração interna e modernizam os seus modos de cooperação para responder ao fenómeno da desglobalização, apostando numa integração regional mais próxima e resiliente. Estes esforços renovam a cooperação multilateral tanto a nível global como regional.

Transformação da ONU: Renovar Autoridade e Vitalidade

Enquanto a organização intergovernamental mais universal e representativa, a ONU tem como missão manter a paz mundial, promover o desenvolvimento global, defender o Estado de Direito internacional e avançar os direitos humanos, com contributos permanentes para o progresso da civilização humana. Contudo, o agravamento do ambiente de segurança internacional e o atraso na implementação da Agenda 2030 colocam desafios inéditos à ONU.

Como responder rápida e eficazmente às questões globais emergentes? Como fazer com que a sua estrutura institucional e a distribuição de poder reflitam a crescente multipolaridade? Como superar a ineficiência e as limitações financeiras? A ONU aposta nas reformas para romper com o impasse, revitalizando-se através da auto-renovação, para melhor corresponder às necessidades da transformação da governação global e às expectativas da comunidade internacional pelo multilateralismo.

Em Setembro de 2024, a Cimeira do Futuro da ONU adoptou o Pacto para o Futuro, com 19 acções para reformar a governação global, focando-se na paz, segurança e arquitectura financeira internacional. Em Março de 2025, o Secretário-Geral António Guterres lançou a Iniciativa ONU80, um plano ambicioso para “construir uma ONU mais forte e focada na missão”, avançando em três eixos: aumentar a eficiência e métodos de trabalho, rever a execução das tarefas mandatadas, e realizar reformas estruturais e ajustamentos programáticos. Como afirmou o Vice-Secretário-Geral da ONU, Guy Ryder: “Se acreditamos que o multilateralismo é a melhor ferramenta para enfrentar desafios globais, temos de garantir que a transformamos e atualizamos para ser o mais eficiente e funcional possível.”

Durante a sua reunião em Agosto de 2025 com o Presidente da China, Xi Jinping, o Secretário-Geral Guterres ouviu que a história demonstra que multilateralismo, solidariedade e cooperação são respostas certas para os desafios globais. É preciso revisitar os propósitos originais da ONU, reafirmar o compromisso com a Carta das Nações Unidas e impulsionar a revitalização da sua autoridade, tornando a ONU a principal plataforma para acção concertada.

Prevê-se que a ONU direccione ainda mais o seu trabalho para a governação global, não só reforçando a segurança e desenvolvimento globais, mas também assumindo papel mais activo na governação dos direitos humanos, ciência e tecnologia — incluindo inteligência artificial — e dos bens comuns globais, como o ciberespaço, regiões polares, oceanos profundos e espaço exterior. Após 80 anos, a ONU deve aumentar a sua eficácia e remodelar o panorama da governação para ser uma plataforma de defesa do direito internacional e do multilateralismo.

Organizações Regionais em Acção: A Integração Regional para Resistir à Desglobalização

Com o aumento da competição entre potências e a fragilização da governação global, os processos de integração regional ganham força silenciosa. Mecanismos regionais focados em cooperação económica e desenvolvimento, minimizando tensões ideológicas e políticas, proliferam como complemento eficaz do multilateralismo global.

Na Ásia, a ASEAN mantém o “modo ASEAN” de consultas informais e diálogo não confrontacional, avançando na construção da Comunidade ASEAN e promovendo um regionalismo aberto. Aproveitando o RCEP — o maior acordo comercial do mundo em população, volume de comércio e potencial —, a ASEAN tornou-se nodo crucial nas cadeias globais de indústria e abastecimento.

Em África, a União Africana segue o princípio de “soluções africanas para problemas africanos”, estabelecendo mecanismos de prevenção de conflitos pela Arquitectura Africana de Paz e Segurança. A Área Continental de Livre Comércio Africana (AfCFTA), com 54 países e 1,3 biliões de habitantes, visa enfrentar choques externos e acelerar a industrialização africana, fortalecendo o comércio interno.

Na América Latina, a integração regional renasce aceleradamente. O MERCOSUL promove reformas institucionais e negocia acordos de livre comércio com outras economias. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) reafirma solidariedade regional, integração e oposição a interferências externas, promovendo uma voz latino-americana plural.

Na Europa, a União Europeia, com o maior grau de integração regional, serve de exemplo pela sua união monetária, mercado comum e política externa comum. A UE exerce forte influência na liberalização comercial, defesa do multilateralismo e governação global, destacando-se na luta contra as alterações climáticas e na governação digital.

3.2 O Sul Global: Avançando a Transformação pela Força da Solidariedade

O Sul Global, formado por mercados emergentes e países em desenvolvimento, partilha uma base política independente e autónoma, uma missão histórica de desenvolvimento e reabilitação, e um compromisso comum com justiça e equidade.

Durante muito tempo, o poder económico mundial esteve concentrado em poucos países desenvolvidos, criando uma estrutura desigual de “centro-periferia”. Com a ascensão colectiva dos BRICS e outros, o Sul Global entrou numa “nova era de despertar”, deixando de ser objecto passivo de distribuição de poder para ser actor activo na governação global. Exigindo reformas em plataformas tradicionais e criando novas, o Sul Global impulsiona a liderança mundial, remodelando profundamente o panorama da governação global.

Definição de Agendas e Luta por Espaço de Desenvolvimento Justo

Num contexto de profundas mudanças na ordem mundial, as economias emergentes participam nas reformas com sentido colectivo sem precedentes. Do combate às alterações climáticas às regras financeiras internacionais e reforma da ONU, o Sul Global define agendas, exige espaço justo para desenvolvimento e promove ajustes estruturais profundos para inclusão e benefícios partilhados, moldando a evolução da governança multipolar.

Os países do Sul Global consideram que a estrutura actual da ONU, especialmente o Conselho de Segurança, não reflete adequadamente a realidade do poder global. Defendem o aumento de assentos para garantir representação e poder decisório justos a regiões como África e América Latina. Essa reivindicação está presente nas coordenações conjuntas sobre questões específicas.

O Sul Global ampliou sua capacidade de definir agendas, transformando preocupações em temas centrais, como o financiamento climático e a redução da desigualdade digital, usando mecanismos como o Grupo dos 77 e a China para formar posições unificadas. Um exemplo recente foi o debate sobre a isenção de direitos de propriedade intelectual das vacinas COVID-19, refletindo a luta do Sul Global por direitos equitativos na governação global da saúde pública.

Para Além dos Paradigmas Ocidentais: Novos Modelos de Cooperação

Insatisfeito com o sistema Bretton Woods (FMI e Banco Mundial), especialmente nos termos dos empréstimos e direitos de voto, o Sul Global procura vias diversificadas de governação financeira global. Bancos multilaterais de desenvolvimento liderados por economias emergentes, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas e o Novo Banco de Desenvolvimento, complementam a arquitectura financeira internacional. Oferecendo soluções financeiras adaptadas e com menos condições, apoiam infraestruturas e projectos de desenvolvimento sustentável no Sul Global.

Estes países também exploram modelos de desenvolvimento adaptados às suas realidades, superando limitações do paradigma ocidental de modernização. Promovem iniciativas como a Iniciativa Global de Desenvolvimento e a Iniciativa do Cinturão e Rota, que enfatizam conectividade e desenvolvimento comum, assegurando apoio a investimentos em infraestruturas, transição verde e transferência tecnológica.

Resolução Pacífica de Conflitos e Prioridade ao Desenvolvimento

Muitos países do Sul Global, marcados pelas guerras e intervenções externas, desenvolveram conceitos de segurança que valorizam o diálogo, reconciliação e resolução regional autónoma de disputas. Organizações como a União Africana e a ASEAN têm papel cada vez mais activo na mediação de conflitos locais.

O Sul Global reconhece as ameaças das questões de segurança não tradicionais — pobreza, desigualdade, alterações climáticas — para a paz duradoura. Nos fóruns multilaterais, colocam o desenvolvimento — erradicação da fome, segurança hídrica, combate a fenómenos climáticos extremos — no centro da agenda de segurança, promovendo uma nova abordagem de “segurança através do desenvolvimento”.

3.3 A Escolha e Ação da China: Sempre Uma Força Construtiva no Mundo em Mudança

O que define uma grande potência? Para o historiador chinês Qian Chengdan, são os países que lideram as tendências do tempo, inauguram novas épocas e servem de modelo para outros.

Num mundo de riscos crescentes, as grandes potências devem priorizar o futuro da humanidade, praticar os valores da Carta da ONU, fornecer bens públicos globais e contribuir para a paz e desenvolvimento mundiais.

China escolheu ser uma força construtiva firme neste cenário. Participando e guiando a reforma do sistema global, criou um método próprio para fortalecer a liderança global, uma tríade de mecanismos de “orientação visionária”, “reforma institucional” e “acções pragmáticas” — o modelo VIP.

Orientação Visionária

Para ultrapassar os desafios actuais, é preciso uma luz orientadora. A China apresentou o conceito da comunidade com futuro partilhado para a humanidade, que desde 2013 evoluiu para um sistema científico abrangente, com metas de um mundo aberto, inclusivo, limpo, pacífico e próspero. A governação global baseia-se nos princípios de ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios partilhados, guiada pelos valores universais da humanidade e por um novo modelo de relações internacionais, apoiado por iniciativas como a Global Development Initiative, a Global Security Initiative, a Global Civilization Initiative e a Global Governance Initiative. O desenvolvimento da iniciativa Cinturão e Rota serve como plataforma prática.

Esta visão enriqueceu a teoria marxista das relações internacionais, rompendo com doutrinas ocidentais tradicionais e apontando o caminho para a governação global.

Em domínios específicos, a China avançou na construção de comunidades globais da saúde, do ciberespaço, da vida na Terra e da segurança compartilhada, ampliando o alcance e a abrangência do conceito.

Frente aos desafios crescentes, propôs governança holística que aborda causas e sintomas: economia global baseada em igualdade, abertura, cooperação e benefícios partilhados; segurança global comum, abrangente, cooperativa e sustentável; desenvolvimento inovador, coordenado, verde, aberto e partilhado; cooperação pautada pela abertura, conectividade, benefício mútuo e ganha-ganha; civilizações fundadas na igualdade, aprendizagem mútua, diálogo e inclusão.

Em 2025, no 80º aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial e da criação da ONU, o Presidente Xi Jinping apresentou a Global Governance Initiative, que defende igualdade soberana, respeito pelo Estado de Direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e cooperação orientada à acção — uma proposta visionária e oportuna que demonstra responsabilidade chinesa e recebeu apoio internacional.

Reforma Institucional

Fortalecer a liderança global exige renovação filosófica e reforma institucional. A China persegue simultaneamente a “reforma de estruturas existentes” e a “criação de novos mecanismos”, consolidando e otimizando o sistema global para dar mais vitalidade e eficácia à liderança global, promovendo uma ordem internacional mais justa e equitativa.

Na reforma de estruturas existentes, promove a racionalização das plataformas globais — ONU, FMI, Banco Mundial, OMC — buscando distribuição equitativa de recursos e justiça nas estruturas de governação. Na criação de novos mecanismos, lidera instituições multilaterais inovadoras como o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas e o Novo Banco de Desenvolvimento, e propõe novos modelos de cooperação como BRICS Plus e China-Ásia Central, impulsionando a globalização económica e a cooperação para o desenvolvimento, dando suporte ao Sul Global para formar uma comunidade com futuro partilhado.

A assinatura da Convenção da Organização Internacional para Mediação, em Hong Kong, em Maio de 2025, simboliza a capacidade inovadora e o poder unificador da China na governação global. Com 33 países fundadores, preenche uma lacuna crítica na mediação internacional, oferecendo um bem público jurídico essencial. O Brasil 247 observou que o amplo apoio dos países do Sul Global indica uma transformação: os antigos poderes não podem monopolizar as regras nem impor unilateralmente formas de resolução de disputas.

Acções Pragmáticas

A insuficiente oferta de bens públicos internacionais é uma manifestação clara do défice de liderança global. A China assumiu ativamente o papel de provedora destes bens, com contribuições em três dimensões: bens públicos tangíveis, institucionais e ideológicos. Os bens tangíveis, materializados em acções concretas, satisfazem necessidades práticas urgentes e catalisam a cooperação internacional pela liderança exemplar.

“Grandes visões são simples; acções práticas são essenciais.” No sector agrícola, a China forneceu tecnologia Juncao a países do Pacífico e apoiou a produção de arroz híbrido em África. Na saúde, distribuiu vacinas COVID-19 globalmente e ajudou a criar o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças. Em missões de paz, enviou mais de 50 mil capacetes azuis e formou uma força de prontidão para manutenção da paz. Na cooperação internacional para o desenvolvimento, implementou projectos de combate à pobreza, apoio agrícola e adaptação às alterações climáticas através do Fundo de Cooperação Sul-Sul e Desenvolvimento Global, avançou na construção da Rota da Seda Verde e Digital no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, e facilitou a assinatura do RCEP, criando a maior e mais dinâmica área de livre comércio do mundo.

Perante os desafios que unilateralismo e política de poder impõem à ONU, a China mantém firme o compromisso de apoiar a ONU para preservar sua autoridade e estatuto. Líderes chineses têm-se reunido com altos funcionários da ONU, visitado sedes e participado em eventos, promovendo a cooperação China-ONU. Apoiou a ONU criando fundos específicos e promovendo a implementação do Acordo de Paris e do quadro climático da ONU. É o segundo maior contribuinte dos fundos da ONU e das operações de manutenção da paz. Siddharth Chatterjee, Coordenador Residente da ONU na China, afirmou: a China tem mostrado forte capacidade de coordenação política e implementação em áreas como redução da pobreza, cooperação em saúde pública, resposta às alterações climáticas e transformação verde. Ele sublinhou a importância da liderança chinesa para unir o mundo em torno da agenda multilateral.

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