Jornalismo Investigativo: Pilar na Luta Contra a Corrupção e na Defesa da Democracia

Maputo: No Dia Internacional Contra a Corrupção

Maputo, 8 de Dezembro de 2025 – Teve lugar, na terça-feira, em Maputo, um seminário estratégico subordinado ao tema "O papel do jornalismo investigativo na resiliência da democracia moçambicana", promovido pelo Centro de Integridade Pública (CIP), por ocasião do Dia Internacional Contra a Corrupção.

 O evento reuniu jornalistas, estudantes, representantes da sociedade civil, magistrados, advogados, académicos e parceiros internacionais, como a União Europeia e a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), contando também com a presença da Escola Superior de Jornalismo.

 


Na abertura do encontro, o director do CIP, Edson Cortez, destacou o jornalismo investigativo como uma ferramenta essencial na luta contra a corrupção e na promoção da transparência, alertando para os desafios que o país enfrenta:

 "A corrupção é um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento e tem fragilizado a sustentabilidade financeira do Estado. O jornalismo de investigação permite denunciar esses casos, dar visibilidade às violações e pressionar por mudanças", afirmou Cortez.

Segundo o Director do CIP, é fundamental reforçar a formação de jornalistas e organizações locais, uma vez que a corrupção não se limita ao nível central, mas estende-se às províncias e distritos, onde há influência crescente de investimentos externos.

“É fundamental perceber que a corrupção não é apenas um fenómeno a nível central, é um fenómeno local, nacional, regional e internacional. Num país que está cada vez mais exposto a dinâmicas transnacionais e internacionais, vemos vários distritos que são alvos de investimentos estrangeiros, tanto fora de África como a nível regional, e nesses contextos, observamos muitas violações de direitos humanos e numerosos casos de corrupção.

O seminário visou promover uma reflexão colectiva sobre o papel da imprensa na construção de uma governação mais íntegra e democrática, sobretudo num contexto onde o jornalismo enfrenta ameaças à liberdade de expressão e restrições operacionais.

Relato Exclusivo: Como a Corrupção e as "Democracias Frágeis" Reduzem a Responsabilidade do Estado e Deixam Jornalistas à Mercê de Atores Criminosos Poderosos.

O exercício do jornalismo investigativo em Moçambique, particularmente ao focar-se em temas sensíveis como a corrupção e o crime organizado, coloca os profissionais da comunicação social numa zona de elevado risco de segurança, num cenário caracterizado pela fragilidade democrática e pela impunidade sistémica.

 

         Lázaro Mabunda, Jornalista e Colaborador do CIP

Segundo  Mabunda, o exercício do jornalismo investigativo em contextos de democracias frágeis expõe os jornalistas a ameaças diretas, muitas vezes sem qualquer tipo de proteção institucional. “Estamos a investigar actores que têm mais poder do que o próprio Estado. Isto reduz a responsabilização das instituições estatais e coloca-nos numa posição de vulnerabilidade extrema”, afirmou.

 A experiência da caça furtiva e o "negócio de luxo"

Na sua intervenção, Mabunda descreveu a investigação que realizou em 2010 sobre a caça furtiva no sul do país, particularmente no distrito de Massingir. O caso, segundo o jornalista, revelou um esquema altamente lucrativo ligado ao tráfico de cornos de rinoceronte e marfim, alimentado por redes de crime organizado e sustentado por uma teia de cumplicidade institucional.

A investigação ganhou impulso após o Mundial de Futebol de 2010, período em que aumentou a procura internacional, especialmente da China, por marfim. “Um quilo de corno custava cerca de 60 mil dólares. Isso fez com que sindicatos do crime em Gaza abandonassem o tráfico de viaturas e se dedicassem a este negócio”, disse Mabunda.

O jornalista denunciou ainda que, em Massingir, o poder do Estado estava subalternizado a interesses criminosos. “Vivíamos uma realidade de estados dentro do Estado. Os grupos criminosos controlavam completamente as autoridades locais”, afirmou.

Mabunda concluiu alertando para os perigos enfrentados por jornalistas investigativos num país onde estruturas estatais fragilizadas convivem com redes criminosas poderosas. “Investigar corrupção ou crime organizado é colocar-se em risco. Mas alguém tem de fazê-lo”.

A partilha reforça a urgência de criar condições de segurança e liberdade para o exercício do jornalismo investigativo em Moçambique, numa altura em que a corrupção continua a minar as bases da democracia e do Estado de Direito.

A Missão e o Risco Pessoal

Perante esta realidade de captura estatal, o jornalista investigativo enfrenta questões constantes sobre a sua segurança e se tem "medo de morrer". Contudo, a motivação para persistir é a convicção de que têm uma missão a cumprir, e se "não cumprimos nós, ninguém vai cumprir", apesar de se fazerem "coisas que só imaginamos as consequências depois".

 

Moçambique: O Paradoxo do Risco e a Captura do Jornalismo num Sistema Autoritário

 

O exercício do jornalismo investigativo em Moçambique está envolto numa atmosfera de risco existencial, onde a perceção comum é que esta prática equivale a "colocar a onça a corta" ou "buscar a morte". Este cenário de perigo, que leva jornalistas a questionarem se têm "medo de morrer" ou se possuem "costas quentes", é intrinsecamente ligado à natureza autoritária e cleptocrática do sistema político e económico do país.

 

            Ernesto Nhanale, Jornallista e Director do MISA Moçambique

Ernesto Nhanale,  foi categórico ao afirmar que “em contextos de democracias frágeis, como o moçambicano, o jornalismo de investigação não apenas denuncia a corrupção, mas desafia directamente estruturas de poder profundamente enraizadas e muitas vezes criminosas”. Segundo Nhanale, o poder político e económico está cada vez mais concentrado nas mãos de elites que instrumentalizam o aparelho do Estado para proteger interesses próprios, reprimindo qualquer tentativa de escrutínio público.

“Estamos a assistir à consolidação de redes paralelas de poder. São ‘estados dentro do Estado’, onde actores não estatais, ligados ao crime organizado, exercem mais influência do que as instituições legítimas”, declarou Nhanale, sublinhando que este fenómeno se traduz numa cultura de impunidade. “Quando um jornalista é assassinado ou ameaçado, os autores raramente são identificados ou responsabilizados, porque actuam sob a protecção de estruturas estatais”.

 

Liberdade de Imprensa Capturada pelo Poder Económico

Além dos riscos físicos e psicológicos, Nhanale alertou para a fragilidade económica dos media em Moçambique, tornando-os vulneráveis a interferências políticas. “Muitos órgãos de comunicação sobrevivem graças a financiamentos ou publicidade oriundos das mesmas elites políticas e económicas que deveriam ser fiscalizadas. Isso compromete a sua independência editorial”, explicou.

Neste cenário, o jornalismo investigativo enfrenta uma segunda ameaça: a corrupção interna. “A própria indústria da corrupção já aprendeu a cooptar jornalistas. Há casos em que profissionais são aliciados para não publicar uma história, manipular factos ou servir interesses de determinados grupos, o que corrói a credibilidade da profissão e mina o seu papel cívico”, acrescentou o Director do MISA.

 

Chamado à Acção

 O seminário serviu ainda como plataforma para propor soluções. Os participantes defenderam a criação de mecanismos legais e institucionais que protejam os jornalistas, incluindo fundos para a sustentabilidade dos media independentes, linhas de apoio jurídico para profissionais ameaçados e uma política pública clara de combate à impunidade nos casos de violência contra a imprensa.

 

     Bartolomeu Milton, Presidente da Associação para Bem de Angola-PRO BONO ANGOLA

Para Milton, o acesso à informação é a chave fundamental para o exercício pleno da cidadania e para o controlo democrático. Defende que é através da litigância estratégica, do envolvimento da sociedade civil e da actuação independente do poder judicial que se pode promover uma fiscalização eficaz da gestão pública. “Sem informação, o cidadão está desarmado. E sem cidadania activa, o Estado não é responsabilizado”, sublinhou.

 A Pro Bono Angola, organização que dirige, tem apostado no jornalismo de investigação como uma ferramenta de mobilização social. Milton destacou que os conteúdos produzidos pela associação visam empoderar a população com dados credíveis, contribuindo assim para uma cultura de transparência.

 A intervenção de Bartolomeu Milton encerrou com um apelo claro: “É preciso que o povo volte a acreditar no seu poder de questionar, de exigir e de transformar. A corrupção não se combate apenas nos tribunais  combate-se com participação cívica informada e activa.”

A intervenção de Milton espelha uma realidade transversal a muitos países africanos: sem acesso à informação, a luta contra a corrupção torna-se simbólica. E sem jornalismo independente e corajoso, o silêncio institucional perpetua a injustiça.

 

O encontro terminou com um apelo conjunto à protecção do jornalismo independente e à necessidade de criar mecanismos legais e institucionais que favoreçam a investigação jornalística em prol do interesse público.


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