As reprovações em massa registadas nos exames da 9.ª classe em Moçambique não surpreenderam o Ministério da Educação e Cultura (MEC). Em entrevista à STV Notícias, o porta-voz da instituição, Silvestre Dava, reagiu aos resultados negativos, atribuindo-os à fraca preparação dos alunos e às fragilidades persistentes no sistema de ensino.
Falhas na preparação recaem sobre os docentes
Segundo o MEC, o cenário era previsível a nível interno, embora não tenha sido amplamente discutido devido ao contexto de descontentamento vivido pela classe docente. Para Silvestre Dava, os resultados expõem, sem rodeios, deficiências no processo de ensino.
“Isto revela muita coisa. A primeira é que os alunos não estavam preparados para enfrentar este exame. Se não estavam preparados, é porque nós, os professores, não os preparamos devidamente para enfrentarem os exames”, afirmou.
O porta-voz sublinhou que o problema ultrapassa uma geração específica de alunos e aponta para falhas estruturais. “Precisamos de trabalhar mais, não apenas em relação a estes alunos, mas em relação ao sistema no seu todo, porque detectamos alguma fragilidade naquilo que é o nosso trabalho”, acrescentou, falando à STV Notícias.
Regulamentos mantêm-se e ‘notas votadas’ ficam fora de questão
Outro ponto sensível abordado prende-se com o regulamento dos exames da 9.ª classe, que não permite a atribuição de valores compensatórios a alunos que ficam a dois valores da aprovação, prática admitida noutros níveis de ensino.
Silvestre Dava foi claro ao afastar qualquer intenção de rever o regulamento para facilitar a transição dos estudantes:
“Nós trabalhamos para que o aluno adquira competências que lhe permitam responder com sucesso ao exame. Não trabalhamos à espera que o aluno conte com uma nota votada. Não é essa a nossa visão.”
Segundo o MEC, o foco do sistema deve estar no mérito e na capacidade real do aluno. O porta-voz esclareceu ainda que “os regulamentos não são revistos em função dos resultados obtidos, mas sim da dinâmica do próprio processo de ensino-aprendizagem”.
Dados preocupantes em várias províncias
Embora os dados estatísticos nacionais ainda não estejam completamente consolidados, informações avançadas pela STV Notícias indicam um cenário preocupante em diversas províncias, onde as taxas de aprovação ficaram abaixo dos 40%.
O MEC defende que o objectivo a médio e longo prazo deve ser a aprovação integral das turmas, sustentando que o sistema deve evoluir de um modelo de sucesso parcial para um cenário em que, numa turma de 30 alunos, todos consigam transitar com base em competências reais.
O sistema educativo assemelha-se a uma ponte em construção: se os pilares — a formação dos professores e a preparação dos alunos — não forem devidamente consolidados, a estrutura não suportará o peso dos exames nacionais. As reprovações em massa na 9.ª classe não são um acidente isolado, mas um sinal de alerta que expõe fragilidades antigas, agora difíceis de ignorar.

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