Entre o Velho e o Novo: O “Défice Global de Liderança” em Meio a Mudanças Profundas no Mundo

 “O velho mundo está morrendo, e o novo mundo luta para nascer.” Esta frase célebre do teórico marxista do século XX, Antonio Gramsci, descreve com precisão a era em que vivemos. Estamos num ponto crucial da história, onde três grandes transformações se desenrolam com força: no modo de produção, no sistema internacional e na diversidade das civilizações humanas. A era digital desponta, o mundo multipolar emerge e a diversidade civilizacional volta a ganhar espaço — tudo a um ritmo acelerado, como não se via há um século.

À medida que a humanidade se torna uma comunidade global com futuro comum, torna-se vital uma coordenação global e ação coletiva internacional para entender, adaptar-se e orientar essas mudanças. No entanto, estamos atolados num “défice global de liderança”. O mundo, como um navio à deriva, balança nas ondas gigantes dos nossos tempos. Será que a história vai recuar? A transformação global vai sair do controle? A crise da ordem antiga será resolvida pacificamente ou levará ao colapso? O novo mundo será uma repetição do passado ou uma ideia inovadora para o futuro? São perguntas que definem o destino da humanidade, tornando urgente reconstruir a liderança global.

O Significado e a Trajetória Histórica da Liderança Global

Para reconstruir a liderança global, é essencial entender seu significado, evolução histórica e importância para a paz, o desenvolvimento e o avanço da civilização humana, no contexto da história mundial e do sistema internacional.

Significado Essencial: Uma integração dinâmica entre coordenação global e liderança dos grandes países.

A expressão “liderança global” surgiu na gestão de recursos humanos, referindo-se à capacidade de liderar organizações em diferentes contextos culturais e geográficos. Nas relações internacionais, o termo é usado sem definição uniforme, às vezes confundido com “governança global”, “liderança internacional” ou até “hegemonia”.

Hoje, liderança global é entendida como um processo construído pela cooperação igualitária entre países, organizações internacionais, regionais e não governamentais, com consultas, diálogo e ação conjunta para enfrentar desafios transnacionais e reformar a ordem internacional. Não é hegemonia de uma potência, mas sim uma sinergia multilateral.

A Formação da Ordem Internacional Moderna

A liderança global é fruto da evolução histórica e da necessidade da produção globalizada, representando o desejo da humanidade de superar a anarquia e alcançar uma ordem internacional modernizada.

Modelo de Estado-Nação Soberano

Marx e Engels já diziam que à medida que as relações de produção e o intercâmbio entre nações aumentam, a história se torna mundial. A abertura das rotas marítimas no século XV e XVI marcou o início da história global e da modernização da civilização humana. A globalização criou uma rede interligada e a ordem internacional moderna espalhou-se do Ocidente para o mundo, baseada em princípios como soberania e direito internacional.

O Sistema de Westfália, do século XVII, estabeleceu o Estado-nação soberano como unidade básica, inaugurando a ordem internacional moderna. No século XIX, o Sistema de Viena, com o Concerto da Europa, buscou equilibrar poderes e é considerado o berço da governança global contemporânea. Após a Primeira Guerra Mundial, o Sistema de Versalhes-Washington tentou construir nova ordem internacional, ainda dominada por potências fortes, mas com maior alcance global. A Liga das Nações, criada então, buscou manter a paz e a segurança coletiva, impulsionando movimentos de libertação nacional.

Fundação da ONU e a Construção da Liderança Global

Em 26 de Junho de 1945, representantes de 50 países, incluindo a China, assinaram em São Francisco a Carta da ONU, marcando a vontade da humanidade de construir a paz após os horrores da Segunda Guerra Mundial. A ONU representou a primeira ordem internacional baseada em igualdade soberana e direitos universais, hoje com 193 países membros.

A Carta da ONU sistematizou princípios como igualdade soberana, resolução pacífica de conflitos e observância do direito internacional, criando normas fundamentais para as relações internacionais pós-guerra. A ONU uniu países de diferentes sistemas sociais, culturas e níveis de desenvolvimento numa causa comum: paz e progresso da humanidade. Foi a primeira instituição a representar a liderança global reconhecida internacionalmente.

Evolução Conturbada da Liderança Global Pós-Segunda Guerra

A história não segue uma linha reta. Durante a Guerra Fria, a ONU ficou reduzida à arena da rivalidade entre EUA e URSS, limitando sua eficácia. A segurança global foi marcada por tensões e conflitos locais, enquanto novas formas de liderança global sem hegemonia começaram a surgir. Com a chegada de muitos países independentes da Ásia, África e América Latina, e o regresso da China à ONU, a organização mudou seu foco do confronto Leste-Oeste para um eixo Norte-Sul, adaptando sua estrutura e agenda, criando órgãos como UNCTAD e UNDP.

Fora da ONU, países não ocidentais ganharam força no cenário internacional, com movimentos como os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, a Conferência de Bandung e o Movimento dos Não-Alinhados. A Europa ocidental iniciou sua integração, que culminou na Comunidade Europeia.

O fim da Guerra Fria revigorou a ONU, ampliando missões de paz, assistência humanitária e reformas institucionais. Em 1995, a Comissão de Governança Global destacou que só com esforço coletivo se poderia construir um mundo melhor. A multipolaridade, a globalização económica e a revolução tecnológica trouxeram diversidade e pluralismo à liderança global, com os países do Sul emergindo como protagonistas em fóruns como G20, BRICS e Organização de Cooperação de Xangai.

Os Pilares e Elementos Centrais da Liderança Global

No mundo pós-Segunda Guerra, o multilateralismo tornou-se regra. A liderança global eficaz baseia-se em mecanismos multilaterais que promovem cooperação, fornecem bens públicos, definem regras e guiam valores.

Dois Pilares Principais

  • A ONU e suas agências especializadas, programas e fundos.
  • As instituições de Bretton Woods, responsáveis pela ordem política e econômica mundial.

Essas instituições atravessaram crises e reformas, acompanhando a transição do mundo bipolar para o multipolar, e ainda hoje são cruciais para a governança global.

A ONU lidera a segurança coletiva, através do Conselho de Segurança, com foco em não proliferação e operações de manutenção da paz. Também coordena a governança do desenvolvimento com estratégias desde a Década do Desenvolvimento até a Agenda 2030. Suas agências desempenham papéis importantes na saúde (OMS), direitos humanos (Conselho de Direitos Humanos), cultura (UNESCO) e direitos das mulheres (ONU Mulheres).

Porém, os Estados Unidos e outros países ocidentais frequentemente priorizam seus interesses próprios, interferindo em assuntos internos, abusando da hegemonia, fomentando confrontos e minando a ordem internacional, gerando instabilidade.

Quatro Elementos Centrais

  • Capacidade de Guiar Cooperação Multilateral: Liderar as partes para superar divergências, construir consensos e alcançar ações coletivas com efeitos multiplicadores.
  • Capacidade de Fornecer Bens Públicos Internacionais: Países maiores devem prover recursos e serviços compartilhados essenciais ao bem-estar global.
  • Capacidade de Moldar Regras Institucionais: Um sistema justo depende da aceitação voluntária das regras, que devem ser reformadas conforme a evolução dos tempos.
  • Apelo a Valores e Ideias: Além das instituições, a liderança global precisa de valores comuns que orientem normas internacionais. O declínio do neoliberalismo e da hegemonia ocidental cria um vazio ideológico, e um novo conjunto de valores será crucial para a capacidade dos países enfrentarem desafios internos e globais.

Sintomas da Crise Atual: Paz Fragilizada, Desenvolvimento Desigual e Conflito entre Civilizações

O sistema internacional contemporâneo enfrenta crise estrutural e normativas globais estão em colapso. A moralidade internacional está em baixa, os EUA mostram tendência a abandonar compromissos e tratados, e unilateralismo e bullying prevalecem. A liderança global está enfraquecida em todos seus pilares: cooperação multilateral, bens públicos, mecanismos e valores.

Paz em Risco

Conflitos armados e disputas territoriais explodem em várias regiões: Ucrânia, Israel-Palestina, Sudão, Congo, Índia e Paquistão. O número de conflitos é o maior desde 1945.

Os EUA protagonizaram guerras diretas e operações militares que causaram centenas de milhares de mortes, principalmente civis, gastando bilhões em defesa e mantendo centenas de bases pelo mundo, criando uma “ansiedade coletiva” global em segurança.

Crises humanitárias são alarmantes: Gaza, Sudão, Iémen enfrentam deslocamentos, fome e desnutrição aguda. Relatório recente do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos indica aumento de 37% nas mortes por conflitos violentos entre 2023 e 2024.

Além das ameaças tradicionais, o mundo encara crises climáticas, alimentares e energéticas, entrelaçadas a factores políticos, económicos e culturais, gerando uma “sociedade de riscos” dominada pela incerteza.

Desigualdade no Desenvolvimento

O modelo neoliberal privilegia geração de riqueza, aprofundando a desigualdade dentro e entre países. Nos EUA, o 1% mais rico ultrapassou a riqueza da classe média. No Sul global, desemprego e pobreza crescem, com 800 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza e o índice de desigualdade global (Gini) em níveis alarmantes.

A hegemonia digital ocidental intensifica essa divisão. Mais de dois bilhões de pessoas nunca usaram a internet, e o acesso à tecnologia nas economias em desenvolvimento é limitado e lento. Países desenvolvidos dominam o ranking de prontidão tecnológica, enquanto o Sul global é vulnerável a uma “nova armadilha malthusiana” com a revolução da inteligência artificial.

Geopolítica tensa, protecionismo e anti-globalização dificultam a recuperação económica e a implementação da Agenda 2030 da ONU. Tarifas recíprocas dos EUA têm atrapalhado o comércio mundial, reduzindo investimentos globais.

Conflitos Entre Civilizações

Após a Guerra Fria, a tese do “choque de civilizações” causou polêmica. No século XXI, o conservadorismo em ascensão minou valores pluralistas. Narrativas falsas como “democracia vs autoritarismo” aumentaram confrontos sistêmicos, e políticas identitárias intensificaram tensões étnicas e religiosas.

O mundo vê hoje a diversidade civilizacional ressurgir, e o domínio ocidental perder força. O desafio é construir relações novas entre civilizações, evitando confrontos globais. Embora criticado, Samuel Huntington advertiu que a paz global depende do reconhecimento e cooperação entre culturas.

Internamente no Ocidente, há uma “guerra espiritual” entre liberalismo e conservadorismo, aprofundando polarização e fragmentação social, com episódios preocupantes como o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk nos EUA, prenunciando possíveis ciclos de violência política.

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