O Ministério da Educação e Cultura de Moçambique anunciou oficialmente que o ano letivo 2026 terá início no dia 27 de fevereiro, após um adiamento de aulas por causa das chuvas e inundações que danificaram infraestruturas escolares. A retoma com alunos está marcada para 2 de março, estando a reorganização em curso para minimizar o impacto dos danos causados pelas cheias, especialmente na distribuição de livros escolares.
CALENDÁRIO ESCOLAR E IMPACTO DAS CHEIAS
Segundo declarações oficiais, as fortes chuvas que afectaram várias
províncias — incluindo Maputo, Gaza, Sofala e Inhambane — criaram a necessidade
de reprogramar o início do ano lectivo. O Ministério confirmou que cerca de 500
pessoas ficaram desempregadas e que os livros de empréstimo foram destruídos em
várias escolas.
“Tivemos o dano absoluto em relação aos livros de empréstimo… o dano foi
a 100% em relação a esse livro.” — Samaria Dos Anjos Tovela Ministra da
Educação e Cultura.
METAS DE MATRÍCULAS E DISTRIBUIÇÃO DE LIVROS
O sector define como meta para 2026 a inscrição de mais de 1,6 milhão
de novos alunos, com um grau de realização actual de 81,2% (1,32 milhão).
As matrículas continuarão abertas até abril para assegurar a inclusão,
sobretudo de crianças em centros de acolhimento.
A distribuição de livros gratuitos começou em outubro de 2025, com cerca
de 18 milhões de exemplares já servidos às escolas. Entre as inovações
nos materiais deste ano está a inclusão de datas históricas e festivas nas
páginas finais, com o objectivo de reforçar a identidade e conhecimento
histórico dos estudantes.
REFORMA CURRICULAR E CAPACITAÇÃO DE
PROFESSORES
O ano letivo de 2026 marca também o início de uma reorganização
curricular no ensino secundário, alinhando-se à nova Lei do Sistema
Nacional de Educação. Entre as mudanças destaca-se:
- Reintrodução
de Física e Química na 7ª classe
- Reintegração
de Geografia no segundo ciclo
Estas alterações respondem a lacunas que impediam alunos moçambicanos de
concorrer com preparação adequada em cursos de engenharia e áreas tecnológicas
no exterior.
Para apoiar essa mudança, 4.551 professores e formadores estão a ser
capacitados em parceria com universidades como a Universidade Eduardo Mondlane
e a Universidade Pedagógica, com foco no domínio de metodologias de ensino
para ciências e tecnologias.
FIM DO ENSINO NOTURNO PARA MENORES DE 18 ANOS
Uma das medidas mais significativas é a eliminação do período
nocturno para menores de 18 anos. O Ministério determinou que os
estudantes abaixo dessa idade deverão frequentar aulas no turno diurno por
questões de segurança e eficácia pedagógica.
Para acomodar este fluxo, 159 escolas em todo o país vão adoptar o
regime de três turnos.
“À noite é para dormir… mesmo os nossos inspetores indo fazer a
monitoria à noite encontrando a criança a dormitar nas aulas não é possível
dizer: ‘Olha tem que estar atento’” — Samaria Dos Anjos Tovela MEC.
DESAFIO DA QUALIDADE NO ENSINO
O Ministério enfatizou que o maior desafio do sector não é apenas o
acesso, mas a qualidade efetiva da aprendizagem. Foi citado o caso de
uma escola na Zambézia onde uma turma teve 97% de reprovação devido à
ausência de leccionação de 51 unidades temáticas.
“O desafio hoje em relação à aprendizagem é exatamente a qualidade… que
os nossos professores sejam facilitadores do processo de ensino-aprendizagem” —
Ministra da Educação.
HISTÓRICO DE MUDANÇAS
NO SISTEMA NACIONAL DE EDUCAÇÃO (ÚLTIMOS 20 ANOS)
Para contextualizar as mudanças anunciadas para 2026, é essencial
entender como o sistema nacional de educação evoluiu nas últimas duas décadas
em Moçambique.
REVISÃO DA LEI DO SISTEMA NACIONAL DE
EDUCAÇÃO (2018/2019)
Em dezembro de 2018, o Parlamento moçambicano aprovou a Lei nº
18/2018, que reformulou o Sistema Nacional de Educação (SNE). Esta lei foi
um marco porque:
- Amplia
a escolaridade obrigatória de 7 para 9 anos;
- Redefine
os ciclos do ensino básico, com primário de 1ª a 6ª classe e secundário
de 7ª a 12ª classe;
- Introduz
a etapa de educação pré-escolar como parte do sistema;
- Consolida
seis subsistemas: pré-escolar, educação geral, adultos, profissional,
formação de professores e ensino superior.
O Presidente da República promulgou a lei em 31 de Dezembro de 2018,
e a mudança começou a vigorar em 2019.
EXPANSÃO DA EDUCAÇÃO OBRIGATÓRIA
Com a revisão da lei, a escolaridade básica obrigatória passou a
abranger até o 9º ano, um passo significativo para garantir maior
permanência dos alunos no sistema educativo e combater a evasão precoce.
Antes disso, a obrigatoriedade terminava no 7º ano. Essa alteração foi
uma resposta aos desafios educacionais e sociais, alinhando Moçambique às
práticas regionais e acordos educacionais internacionais.
ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS AO CURRÍCULO E CICLOS
DE ENSINO
A lei reorganizou o formato do ensino:
- Primário
passou de 7 para 6 anos, dividido em dois ciclos mais
coerentes;
- O 7º
ano foi integralmente integrado ao ciclo secundário, permitindo mais
tempo de ensino fundamental.
INCLUSÃO DE EDUCAÇÃO PARA ADULTOS E FORMAÇÃO
DE PROFESSORES
A nova lei reconheceu a importância da educação de adultos e da formação
contínua de professores como parte integrante do SNE.
Programas de alfabetização e capacitação docente têm sido prioritários
para melhorar a aprendizagem ao longo do tempo.
HISTÓRIA LEGISLATIVA DESDE 1992
Antes de 2018, o sistema educacional estava ancorado na Lei nº 6/92,
que por sua vez substituiu a Lei 4/83 e introduziu importantes mecanismos de
participação privada e ajustes pedagógicos após a guerra civil.
EVOLUÇÃO E DESAFIOS
Ao longo das últimas duas décadas, Moçambique passou de um sistema com
escolaridade obrigatória até o 7º ano para um modelo ampliado até o 9º ano, com
reorientação curricular e reconhecimento de subsistemas que incluem educação
adulta e formação docente.
As mudanças para 2026 — como reorganização curricular, fim do ensino
noturno para menores e foco na qualidade — são parte de uma tendência
estrutural que começou com a revisão da Lei do Sistema Nacional de Educação.
Apesar dos avanços, o sector ainda enfrenta desafios como transição entre
ciclos e qualidade de aprendizagem, que são alvos centrais das reformas em
curso.
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