Oito indivíduos invadiram uma residência e o único estabelecimento de bens de primeira necessidade da zona, agredindo os proprietários perante a inacção da Polícia, que alegou falta de combustível e tardou sete horas a chegar ao local.
Um grupo armado composto por pelo menos oito homens munidos de catanas, marretas e material de corte invadiu, na madrugada desta terça-feira, por volta das 02:00 horas, a residência e mercearia do comerciante Quizesito Castro Oliveira, localizada no bairro de Pavoa, na cidade da Beira, província de Sofala.
Durante a incursão violenta, os assaltantes amarraram
e agrediram brutalmente o proprietário e a sua esposa, intimidaram os filhos
menores e apoderaram-se de 12 mil meticais em numerário físico, sete
telemóveis, um televisor, aparelhos electrónicos e a totalidade da mercadoria
do estabelecimento comercial, gerando um prejuízo estimado em 500 mil meticais.
A Polícia da República de Moçambique (PRM) foi prontamente accionada durante a ocorrência, mas apenas se fez presente no local cerca de sete horas mais tarde, sob a alegação de falta de combustível nas viaturas de patrulha.
Terror na Madrugada e Agressões com Catanas
De acordo com os dados apurados pela reportagem junto das vítimas e residentes, os malfeitores aproveitaram a ausência de um muro de vedação e a escuridão da noite para aceder ao recinto. A despeito da reacção dos três cães de guarda e do disparo do alarme do portão, os criminosos arrombaram as portas de acesso e invadiram o interior da habitação. Enquanto oito homens operavam no interior do imóvel, outros elementos permaneciam no exterior a prestar apoio, ostentando marretas e ferramentas de corte.
Sob ameaças constantes de morte dirigidas a todo o
agregado familiar, os assaltantes amarraram Quizesito Castro Oliveira e a sua
esposa, Localde Afonso Segurar, desferindo-lhes golpes com catanas. Os
criminosos exigiram a entrega imediata dos valores monetários em posse da
família, a chave da mercearia e os códigos PIN dos telemóveis e das contas de
carteira móvel.
Nas palavras da vítima, Quizesito Castro Oliveira, os momentos vividos no interior do seu lar foram de pânico e impotência:
"O que aconteceu não sei dizer, aquilo foi às uma indo para as duas. Chegaram aqui na minha casa, entraram oito, romperam a porta, entraram dentro e daí nos agrediram, nos amarraram a mim e à minha esposa. Pediram dinheiro, 12.000 [meticais], e levaram sete telefones, levaram um Bluetooth, levaram televisão. Depois pediram a chave da mercearia (...) Disseram que lá fora tinham mais homens e que se reagíssemos terminavam com a nossa vida."
A esposa do comerciante, Localde Afonso Segurar, sofreu ferimentos visíveis no rosto e na boca decorrentes das agressões físicas sofridas. Em depoimento emocionado, descreveu a violência da quadrilha:
"Eles vieram uma hora, nos encontraram aí dentro (...) Começaram a me chamboquear, começaram a chamboquear a ele com catana, a nos ameaçar que 'vocês vão morrer se vocês gritar aqui'. Nós ficamos calados (...) Foram muito violentos, me bateram, me feriram essa parte aqui e a boca também."
Os menores de idade e um sobrinho do casal, que se
encontravam noutro compartimento da casa, foram igualmente coagidos sob ameaça
de armas brancas para não gritarem nem pedirem socorro, tendo-lhes sido
confiscado um telemóvel.
Demora Policial e Indignação Comunitária
O alarme do estabelecimento chegou a tocar durante o
arrombamento das grades da mercearia, o que alertou os vizinhos mais próximos.
Um grupo de moradores, liderado por Vontade Fernandes, reuniu-se com o chefe
comunitário e organizou buscas na tentativa de interceptar os assaltantes. No
entanto, durante a inspecção no perímetro, familiares da vítima conseguiram
recuperar apenas um saco de 10 quilogramas de arroz abandonado pelos criminosos
na via pública.
A principal fonte de revolta da população local reside
na lentidão de resposta das forças de ordem e segurança. Apesar de as chamadas
de emergência para as autoridades terem sido efectuadas por volta das 02:00
horas da madrugada, a equipa policial só se deslocou ao local do crime entre as
08:00 e as 09:00 horas da manhã.
A razão avançada verbalmente pela corporação aos
residentes justificou-se com a suposta ausência de combustível para as viaturas
de patrulhamento.
O residente Vontade Fernandes expressou o
descontentamento colectivo em relação à actuação policial:
"Tentamos comunicar com a polícia ontem, e a polícia disse que não tinha combustível para vir. Ligámos às duas da madrugada e só apareceram hoje às oito ou nove horas. A zona não está bem composta, não há segurança no bairro. Parece que cada mês há três situações e a polícia só diz que é longe ou não tem combustível."
Falha de Infra-estruturas e Abandono Estatal
A investigação promovida no local permitiu verificar
que a criminalidade no bairro de Pavoa é alimentada por graves carências
estruturais. O bairro padece da falta de iluminação pública, situação que deixa
a zona num apagão constante propício a acções delituosas. A este quadro
somam-se a ausência de vias de acesso em condições transitáveis e a
inexistência de um posto policial de proximidade.
A moradora Nádia Castro Oliveira reforçou a queixa da comunidade sobre a falta de protecção e infra-estrutura:
"Queremos justiça e socorro aqui nesta zona de Pavoa. Não temos esquadra perto; se houvesse um posto policial a polícia vinha na hora. A polícia só foi chamada e chegou às nove horas. Não queremos este tipo de ajuda, queremos protecção real."
Encerramento do Único Ponto de Abastecimento Local
As consequências do assalto ultrapassam os danos
patrimoniais e físicos directos sofridos pela família Oliveira. A mercearia
atingida constituía o único estabelecimento comercial do bairro que garantia a
venda contínua de produtos alimentares e bens de primeira necessidade à
população local.
Perante o esgotamento total do seu capital, a destruição da infra-estrutura da loja e o pavor causado pelas ameaças de morte, Quizesito Castro Oliveira tomou a decisão de encerrar definitivamente o negócio.
"Estou a pensar em parar, já não quero vender mais. O que eu assisti não dá para continuar, estou com medo. A mercearia é minha, mas não tenho como começar de novo nem tenho dinheiro para reiniciar. Levaram tudo."
Com o encerramento do estabelecimento, os residentes
de Pavoa enfrentam agora um cenário de desabastecimento local, sendo forçados a
deslocar-se a distâncias maiores para adquirir mantimentos básicos. Até ao
fecho desta reportagem, a Polícia da República de Moçambique não havia
efectuado qualquer detenção referente ao caso, nem apresentado pistas sobre a
localização dos assaltantes.
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