Liberdade de expressão e educação sexual entram no centro do debate
A ativista social Sérgia Chene, da Associação Juvenil Juntos Fazemos Diferença, lançou um apelo directo às igrejas moçambicanas: é tempo de enfrentar, sem rodeios, os tabus que continuam a limitar o desenvolvimento saudável das crianças no País.
Por: Fátima Parruque
Durante entrevista ao programa Meu Bairro, nesta terça-feira, Chene foi clara: a infância em Moçambique ainda é condicionada por estereótipos culturais e religiosos que sufocam a liberdade de expressão.
“A sociedade muitas vezes limita as pessoas, colocando-as em caixas, sem permitir que vivam a liberdade de expressão”, afirmou.
Para a ativista, a igreja — instituição com forte influência social e moral — deve assumir um papel activo na educação e na orientação das famílias, sobretudo em matérias que continuam a ser tratadas como “impuras”.
Educação sexual não é imoralidade
Sérgia Chene defende que a educação sexual deve ser discutida abertamente, sem preconceitos. Segundo ela, ignorar o tema não protege as crianças — expõe-nas.
“Quebrar essas barreiras é essencial, pois a forma como ignoramos certos assuntos interfere no crescimento da sociedade e na nossa capacidade de aceitar a civilização”, sublinhou.
Num País onde a religião molda comportamentos e decisões familiares, a omissão das igrejas em matérias sensíveis pode perpetuar ciclos de desinformação. O silêncio, neste caso, tem consequências reais.
RITOS DE INICIAÇÃO E CASAMENTOS PREMATUROS SOB CRÍTICA
Práticas tradicionais versus direitos da criança
A activista apontou os ritos de iniciação e os casamentos prematuros como práticas que continuam a violar direitos fundamentais da criança, com maior incidência nas regiões Centro e Norte de Moçambique.
Sem rodeios, Chene afirmou que estas práticas comprometem o desenvolvimento emocional, psicológico e académico das menores envolvidas.
Ela defende que as escolas devem assumir um papel mais activo:
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Introdução consistente de conteúdos sobre educação sexual
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Campanhas de sensibilização sobre os riscos dos casamentos prematuros
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Palestras comunitárias que promovam uma sociedade mais organizada e consciente
A tradição tem o seu valor. Mas quando entra em conflito com direitos fundamentais, precisa ser debatida — não blindada.
APOIO PSICOLÓGICO E ENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO: A BASE DA MUDANÇA
Não basta denunciar, é preciso agir
Sérgia Chene foi taxativa: crianças que tiveram a sua liberdade emocional comprometida precisam de apoio psicológico estruturado.
Mais do que discursos públicos, é necessário:
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Envolvimento activo dos pais e encarregados de educação
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Compromisso das lideranças religiosas
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Participação directa de líderes comunitários
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Criação de redes locais de protecção à criança
“O papel da sociedade é fundamental”, concluiu.
A mudança não depende apenas do Estado. Depende da comunidade. Depende das igrejas. Depende das famílias.
Ignorar os tabus não os elimina. Apenas os fortalece.
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