O setor de organização e produção de eventos em Moçambique enfrenta um clima de forte tensão, após denúncias públicas de alegada concentração sistemática de contratos públicos e privados nas mãos do Grupo Evolution Moçambique, empresa associada a capitais portugueses.
Empresários nacionais afirmam que a empresa
tem sido beneficiada com adjudicações diretas e concursos considerados
“viciados”, o que, segundo alegam, tem conduzido dezenas de operadores
moçambicanos à asfixia financeira e iminente falência.
Acusações
de favorecimento e adjudicações diretas
De acordo com fontes do setor, a Evolution
estaria a beneficiar de alegado apadrinhamento de figuras influentes ligadas ao
partido no poder, a FRELIMO, incluindo antigos membros do Governo e
responsáveis em empresas públicas.
As denúncias apontam para:
- Adjudicações
sem concurso público;
- Prazos
exíguos (cerca de 15 dias) para apresentação de propostas em concursos
formais;
- Entregas
antecipadas de projetos à Evolution com meses de antecedência;
- Subcontratação
posterior de empresas nacionais a valores considerados residuais.
Uma fonte empresarial sustenta que tais
práticas criam um ambiente de concorrência desigual, agravando a situação de
empresas que suportam custos fixos elevados — rendas, salários, manutenção de
equipamentos e encargos bancários — sem acesso equitativo ao mercado.
Histórico
judicial e mudança de designação
As críticas incluem referência a um caso
judicial envolvendo a empresa S&R – Santos & Reis Estruturas e
Eventos, apontada como anterior designação do grupo. Segundo relato de um
advogado ouvido pelos empresários, a empresa esteve ligada a um processo
envolvendo o IPEX (Instituto para a Promoção das Exportações), que
resultou na condenação da então diretora, Cecília Candrinho, por
adjudicações diretas consideradas irregulares.
A dirigente foi condenada a pena de prisão
convertida e ao pagamento de cerca de 60 milhões de meticais ao Estado.
Empresários afirmam que, após esse episódio,
o grupo teria alterado a designação comercial para Grupo Evolution Moçambique.
Impacto
económico e social
O setor de eventos emprega diretamente
dezenas de trabalhadores por empresa, além de técnicos sazonais — eletricistas,
montadores, operadores de som e imagem, técnicos de frio, serviços de limpeza e
catering.
Segundo representantes empresariais:
- Cada
empresa emprega, em média, mais de 60 trabalhadores diretos;
- Cada
trabalhador sustenta agregados familiares alargados;
- O
colapso do setor poderá gerar impacto social significativo.
Há ainda denúncias de facilidades de crédito
junto da banca comercial — nomeadamente Millennium BIM e Banco
Comercial e de Investimentos — supostamente não acessíveis nas mesmas
condições às empresas nacionais. Não há, contudo, confirmação pública dessas
alegações.
Alegada
concentração em grandes instituições públicas
Entre as instituições referidas como clientes
recorrentes da Evolution constam:
- Hidroeléctrica
de Cahora Bassa (HCB)
- Banco
de Moçambique
- APIEX
- FACIM
- Centro
Internacional de Conferências Joaquim Chissano
Empresários afirmam que, no caso da FACIM, a
Evolution tem assumido papel central na montagem de pavilhões, estruturas e
produção técnica, levantando questionamentos sobre eventual concentração
excessiva de contratos.
Apelos à
investigação
As denúncias culminam com apelos formais para
intervenção do Gabinete Central de Combate à Corrupção, solicitando
investigação sobre:
- Eventuais
conflitos de interesse;
- Possíveis
pagamentos ilícitos;
- Critérios
de adjudicação;
- Cumprimento
da legislação sobre contratação pública.
Até ao momento, não há posicionamento público
da empresa visada nem das instituições mencionadas relativamente às acusações.
Questão
de fundo: concorrência e soberania económica
Para os empresários nacionais, a questão
ultrapassa a disputa comercial. Argumentam que está em causa:
- A
sustentabilidade das indústrias culturais e criativas;
- A
proteção do tecido empresarial nacional;
- A
transparência nos processos de contratação pública.
Reiteram não se opor ao investimento
estrangeiro, mas defendem igualdade de oportunidades, concursos transparentes e
fiscalização rigorosa.
O debate agora desloca-se para o campo
institucional: caberá às autoridades competentes averiguar os factos e, se
necessário, responsabilizar os envolvidos.
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