Uma cidadã moçambicana, cuja identidade será preservada por razões de segurança, denunciou o pesadelo vivido após ter sido levada para a China por um cidadão chinês com quem contraiu matrimónio. O que inicialmente parecia ser um relacionamento marcado por apoio financeiro à família transformou-se, segundo o seu testemunho, num esquema de exploração sexual, cárcere privado e tráfico humano, culminando num resgate com apoio da embaixada moçambicana e das autoridades locais.
A sedução pelo auxílio financeiro e o “casamento de fachada”
A história começou em 2022, quando a jovem conheceu o cidadão chinês num estabelecimento comercial. Segundo o relato, a aproximação foi facilitada pela situação económica difícil enfrentada pela sua família.
“Eu aceitei ficar com ele porque ajudava os meus pais. Os meus pais são muito humildes e nós estávamos a passar dificuldades”, contou a vítima.
O homem apresentava-se como alguém simples e solidário, chegando inclusive a dormir em condições modestas na residência da família da jovem até conseguir adquirir alguns bens básicos.
Com o passar do tempo, o pai da vítima demonstrou desconforto com a presença constante do estrangeiro sem qualquer formalização da relação. Perante a pressão familiar, o casal oficializou o casamento em 2023. A cerimónia contou, alegadamente, com a presença de supostos familiares do noivo vindos da China.
Pouco depois da união, a jovem decidiu acompanhar o marido para a China, afirmando que a decisão foi motivada pelo compromisso conjugal e não por interesses materiais.
O isolamento e a coerção pela fome em território chinês
Já em território chinês, a vítima afirma que a realidade mudou drasticamente. Descreve a residência onde passou a viver como uma “casa sombria” e relata que o comportamento do marido tornou-se cada vez mais estranho, marcado por visitas frequentes de desconhecidos que comunicavam apenas em mandarim.
Segundo o testemunho, em 2024 começaram os episódios de coerção e privação alimentar.
“Ele dizia: ‘Se quiser comer ou comprar comida, vais ter de trabalhar’”, relatou.
Sem documentos e sem domínio da língua local, a jovem afirma que ficou impossibilitada de procurar ajuda pelas vias normais. Sob ameaça constante e receando morrer de fome, acabou forçada a trabalhar num bar.
De acordo com a vítima, o homem acabou por confessar que o casamento fazia parte de um esquema de exploração.
“Eu não casei contigo porque gostava de ti. Este é o meu trabalho. Não é a primeira vez que trago uma rapariga para a China”, teria afirmado o suspeito.
A jovem relata ainda ter sido submetida a relações sexuais forçadas com vários homens, enquanto o marido controlava os seus movimentos, contactos telefónicos e comunicações com familiares em Moçambique. Sempre que falava com os parentes, era obrigada a fingir que estava bem, sob ameaças de morte.
O resgate e o regresso a Moçambique
A reviravolta ocorreu em 2026, quando a vítima conseguiu confidenciar a sua situação a uma cidadã colombiana que frequentava o mesmo estabelecimento onde era obrigada a trabalhar.
Com apoio dessa mulher, as autoridades policiais foram accionadas e a jovem acabou encaminhada para a embaixada moçambicana.
“O processo está na embaixada. Ele vai responder por abuso. Basicamente, trouxe-me para aqui para ser prostituta enquanto ele recebia dinheiro”, declarou.
Actualmente sob protecção diplomática, a jovem deverá regressar a Moçambique na próxima sexta-feira. Entretanto, afirma ter descoberto uma gravidez resultante dos abusos sofridos, sem saber quem é o progenitor.
Segundo o seu relato, pretende interromper legalmente a gravidez antes de regressar ao país.
Alerta para o tráfico humano disfarçado de casamento
O caso lança um alerta sobre os riscos de tráfico humano associado a falsas promessas de casamento e melhores condições de vida no estrangeiro.
A vítima espera agora que o suspeito seja responsabilizado criminalmente pelos abusos e pela alegada rede de exploração sexual que operava sob a aparência de uma união legítima.
Num apelo dirigido às jovens moçambicanas, deixou uma mensagem de cautela:
“Quero pedir às meninas para ficarem alerta.”
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