Xenofobia na África do Sul paralisa transporte de passageiros e gera clima de medo nos terminais




Os recentes ataques xenófobos em diversas cidades da África do Sul estão a provocar uma retração acentuada no fluxo de viagens a partir de Moçambique, afetando severamente o negócio do transporte transfronteiriço.

O cenário nos terminais rodoviários reflete a tensão: enquanto a procura por assentos com destino à vizinha África do Sul é quase nula, os transportadores operam fluxos de passageiros que buscam apenas o caminho de volta, fugindo da violência que assola a região.

Para os profissionais que dependem das estradas para sobreviver, o dilema entre a segurança e a necessidade financeira é diário. Um dos condutores que aguarda por passageiros descreve a angústia de manter a rota ativa perante a incerteza.

"A coragem não temos, mas não temos alternativa; é o nosso trabalho. Temos que fazer esse nosso trabalho, é o nosso dever de carregar passageiros", desabafa o transportador, sublinhando que, embora acordem todos os dias para trabalhar, a tarefa "não tem sido fácil" devido ao receio que impera do outro lado da fronteira.

O impacto humano destes ataques é visível nos relatos de quem consegue regressar a Moçambique. O transportador João, que realizou recentemente o trajeto de volta, testemunhou o desespero daqueles que escaparam dos ataques em solo sul-africano. Segundo o seu relato, os agressores visam especificamente habitações de estrangeiros assim que identificam a sua nacionalidade.

"Os passageiros com quem eu voltei ontem estavam a comentar que, quando sabem que ali vive um moçambicano ou um estrangeiro, eles vêm, mandam tirar para fora e levam as coisas das pessoas. A pessoa fica assimada", relatou João.

O transportador acrescentou ainda que muitos desses moçambicanos chegam ao país apenas com a vida, deixando para trás anos de conquistas materiais: "Os poucos que voltaram comigo ontem estavam a comentar isso, que eles não têm nada. Todo o tempo que eles ficam [na África do Sul], estão a voltar sem nada para casa".

Apesar do perigo, existem casos isolados de moçambicanos que se veem obrigados a viajar para o país vizinho por razões de força maior. É o caso de Dona Sandra, que, movida por uma agenda inadiável, decidiu enfrentar os riscos para garantir a segurança da família, viajando especificamente para buscar as suas filhas menores.

Um dado relevante nesta vaga de violência é a ausência de ataques diretos aos veículos de transporte de passageiros, uma mudança em relação a episódios xenófobos anteriores. De acordo com informações recolhidas no local, esta relativa segurança das viaturas deve-se à intervenção direta das associações de transportadores, tanto moçambicanas como sul-africanas, que estabeleceram um diálogo para proteger a atividade.

Um dos intervenientes explicou que as associações se organizaram para evitar a destruição de bens que prejudica ambos os lados: "As associações é que também têm algo a falar. Não é como dantes que queimavam os carros. Aquilo ali foi falta de organização, mas os transportadores de lá começaram já a vingar as outras associações, dizendo que 'vocês estão a estragar o nosso trabalho'".

Mesmo com esta proteção aos veículos, o setor continua a acumular prejuízos. Muitos transportadores optam por seguir viagem com os assentos vazios na ida para a África do Sul, alimentando a esperança de encontrar passageiros que desejem regressar a Moçambique, garantindo assim que, pelo menos, a viagem de volta tenha alguma rentabilidade. O clima de incerteza permanece, com o setor dos transportes refém de uma crise social que ultrapassa as fronteiras e ameaça o sustento de centenas de famílias.

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