Moçambique tem electricidade mais barata para consumo interno, mas exporta energia a preços baixos
O custo da electricidade em Moçambique, no sistema Credelec, mantém-se entre os mais baixos da região da África Austral para consumo doméstico, situando-se em torno dos 8 meticais por quilowatt-hora (kWh) nos escalões de maior consumo. Este valor resulta de uma política de tarifas controladas, desenhada para garantir acesso básico à energia eléctrica num país ainda marcado por desigualdades de rendimento e cobertura irregular da rede.
Apesar desta vantagem interna, o cenário muda quando se observa o posicionamento de Moçambique no mercado regional de energia. O país continua a ser um dos principais exportadores de electricidade da SADC, com destaque para a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, que fornece energia em larga escala para a África do Sul e outros mercados vizinhos.
Nos contratos de exportação, o preço praticado por quilowatt-hora é significativamente mais baixo do que o valor pago pelos consumidores domésticos em muitos casos internacionais. A lógica destes acordos é baseada em venda por volume, estabilidade de fornecimento e contratos de longo prazo, o que reduz o preço unitário da energia exportada.
Do outro lado da fronteira, a África do Sul apresenta uma realidade oposta no consumo interno. O sistema eléctrico sul-africano, gerido pela Eskom, tem enfrentado constrangimentos estruturais, incluindo custos elevados de produção, manutenção de centrais e falhas operacionais recorrentes. Isto reflecte-se directamente na factura dos consumidores, onde o preço médio por kWh é substancialmente superior ao praticado em Moçambique.
Na prática, enquanto o cidadão moçambicano beneficia de tarifas relativamente baixas no consumo doméstico, o país vende a sua energia a preços reduzidos no mercado regional, sobretudo em contratos de exportação para grandes consumidores industriais e utilities estrangeiras.
Especialistas do sector energético apontam que este modelo cria um paradoxo estrutural: Moçambique subsidia indirectamente a competitividade energética da região ao vender energia a preços inferiores aos praticados no consumo final sul-africano, sem capturar plenamente o valor económico potencial dos seus recursos hídricos.
Ao mesmo tempo, dentro de portas, a manutenção de tarifas baixas limita a capacidade de investimento das empresas do sector eléctrico, num contexto em que a expansão da rede e a modernização da infra-estrutura exigem financiamento elevado.
O resultado é um equilíbrio delicado entre política social e estratégia económica: garantir electricidade acessível à população e, simultaneamente, manter Moçambique como fornecedor energético regional competitivo, ainda que a preços considerados baixos face ao valor final do mercado.
Este modelo continua a ser alvo de debate entre economistas e decisores políticos, sobretudo quanto à necessidade de revisão das tarifas de exportação e da sustentabilidade do sistema eléctrico nacional a médio e longo prazo.
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