Menos de quatro em cada dez moçambicanos utilizam plenamente os serviços financeiros

 


Menos de quatro em cada dez moçambicanos utilizam plenamente os serviços financeiros

Ter uma conta bancária já não basta. O verdadeiro desafio é transformar acesso em oportunidades para melhorar a vida das famílias.

 No bairro de Namicopo, na cidade de Nampula, Celestino recebe o salário através de uma conta bancária. Todos os meses, dirige-se ao ATM, levanta todo o dinheiro e guarda-o em casa. Nunca utilizou a aplicação do banco, não faz pagamentos electrónicos, não possui seguro, nunca pediu um empréstimo e desconhece as opções de poupança disponíveis.

Embora faça parte das estatísticas de inclusão financeira, a sua relação com o sistema financeiro termina poucos minutos depois de levantar o salário.

A situação de Celestino ajuda a compreender um dos dados mais importantes do Relatório de Inclusão Financeira 2025, divulgado pelo Banco de Moçambique: apesar do crescimento do acesso aos serviços financeiros, o país continua com um nível moderado de inclusão financeira, demonstrando que muitos cidadãos ainda utilizam apenas uma pequena parte dos serviços disponíveis.

O índice continua abaixo do potencial

Segundo o relatório, o Índice de Inclusão Financeira manteve-se em 36,4 pontos, praticamente igual ao registado em 2024.

Este indicador combina três dimensões fundamentais:

  • acesso aos serviços financeiros;

  • utilização efectiva desses serviços;

  • disponibilidade da infra-estrutura financeira.

Embora o acesso tenha melhorado graças à expansão dos agentes de moeda electrónica, o nível global permanece moderado porque muitos cidadãos continuam sem recorrer regularmente a produtos como crédito, seguros, poupança ou investimento.

Mais contas não significam maior inclusão

Nos últimos anos, o número de contas bancárias e de carteiras electrónicas cresceu rapidamente.

Contudo, possuir uma conta não significa utilizá-la para melhorar a situação económica da família.

Em muitos casos, as contas servem apenas para receber salários, pensões, remessas familiares ou efectuar levantamentos de dinheiro.

Por conseguinte, uma parte significativa da população permanece afastada dos produtos financeiros que poderiam apoiar a criação de pequenos negócios, aumentar a poupança ou proteger as famílias contra situações inesperadas.

A literacia financeira continua a ser um obstáculo

O Banco de Moçambique identifica a educação financeira como um dos maiores desafios da inclusão financeira.

Muitos cidadãos sabem utilizar o telemóvel para enviar dinheiro.

No entanto, poucos conhecem as vantagens de criar uma poupança regular, contratar um microsseguro ou recorrer ao crédito de forma responsável.

Esta limitação afecta sobretudo as comunidades rurais, onde o contacto com instituições financeiras ainda é reduzido e a informação especializada chega com maior dificuldade.

O impacto na vida do cidadão comum

A falta de conhecimento financeiro produz consequências silenciosas.

Uma família que não consegue poupar torna-se mais vulnerável quando surge uma doença ou uma quebra na produção agrícola.

Da mesma forma, um pequeno comerciante que desconhece soluções de financiamento pode perder oportunidades para expandir o seu negócio.

Entretanto, trabalhadores que levantam todo o salário em dinheiro continuam expostos ao risco de roubo e à dificuldade de controlar melhor as despesas.

Além disso, muitos jovens entram na vida adulta sem compreender conceitos básicos relacionados com juros, crédito, seguros ou investimento.

A inclusão financeira também significa protecção

Especialistas defendem que uma verdadeira inclusão financeira não se resume ao acesso aos bancos.

Ela implica que o cidadão consiga utilizar serviços financeiros para melhorar a sua qualidade de vida.

Isso inclui:

  • poupar para enfrentar emergências;

  • investir em actividades económicas;

  • proteger a família através de seguros;

  • financiar estudos;

  • aumentar a produtividade agrícola;

  • criar pequenas empresas.

Quando estes instrumentos não são utilizados, o impacto da inclusão financeira torna-se limitado.

O que pretende o Banco de Moçambique?

A Estratégia Nacional de Inclusão Financeira prevê um reforço da educação financeira em escolas, comunidades e pequenas empresas.

Além disso, pretende melhorar a protecção do consumidor, incentivar produtos financeiros adaptados às necessidades das populações rurais e promover soluções digitais mais simples e acessíveis.

O objectivo passa por fazer com que os cidadãos deixem de ser apenas utilizadores ocasionais de serviços financeiros e passem a integrar plenamente a economia formal.

Análise

Os resultados do Relatório de Inclusão Financeira 2025 mostram que Moçambique já venceu parte do desafio relacionado com o acesso aos serviços financeiros. Hoje, milhões de cidadãos possuem uma conta bancária ou uma carteira electrónica.

Todavia, o país enfrenta agora uma etapa mais complexa: garantir que essas contas sejam utilizadas para gerar riqueza, aumentar a produtividade e reduzir a vulnerabilidade económica das famílias.

Enquanto a inclusão financeira continuar limitada ao envio, recepção e levantamento de dinheiro, o seu impacto sobre o desenvolvimento permanecerá parcial. A próxima grande transformação dependerá da capacidade de converter acesso em conhecimento, conhecimento em confiança e confiança em oportunidades económicas para todos os moçambicanos.

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