Seguros continuam fora da realidade da maioria dos moçambicanos e deixam famílias vulneráveis

 


Seguros continuam fora da realidade da maioria dos moçambicanos e deixam famílias vulneráveis

Enquanto o sistema financeiro se moderniza, milhões de cidadãos continuam sem qualquer protecção contra doenças, acidentes, perdas agrícolas ou desastres naturais

No início da última época chuvosa, fortes precipitações destruíram quase toda a machamba de Ernesto, agricultor no distrito de Buzi, província de Sofala. Em poucos dias perdeu sementes, fertilizantes e meses de trabalho.

Sem poupanças suficientes e sem qualquer seguro agrícola, a única alternativa foi pedir dinheiro emprestado a familiares para recomeçar.

Histórias como esta repetem-se todos os anos em várias regiões de Moçambique e ajudam a explicar uma das fragilidades apontadas pelo Relatório de Inclusão Financeira 2025, do Banco de Moçambique: apesar dos avanços na digitalização dos serviços financeiros, os seguros continuam a chegar a uma pequena parcela da população.

O mercado cresce, mas continua distante da maioria

Os dados mostram que o sector segurador registou crescimento em 2025.

O volume de prémios aumentou e a actividade seguradora manteve uma evolução positiva, acompanhando a recuperação de vários sectores económicos.

Contudo, esse crescimento não significa que os seguros tenham passado a fazer parte da vida da maioria dos moçambicanos.

Grande parte das famílias continua sem qualquer mecanismo de protecção financeira contra perdas inesperadas.

Na prática, quando ocorre um incêndio, um acidente, uma doença grave ou uma calamidade natural, os prejuízos recaem quase totalmente sobre os próprios cidadãos.

O que significa não ter seguro?

Para muitas famílias, um único acontecimento pode destruir anos de trabalho.

Uma cheia pode eliminar toda a produção agrícola.

Da mesma forma, um incêndio pode consumir um pequeno estabelecimento comercial.

Além disso, um acidente rodoviário pode comprometer o rendimento de uma família durante vários meses.

Sem seguro, todas estas perdas são suportadas pelos próprios afectados, aumentando o risco de endividamento e pobreza.

Agricultura continua particularmente vulnerável

Moçambique é um dos países africanos mais expostos aos efeitos das alterações climáticas.

Ciclones, secas prolongadas, cheias e tempestades afectam regularmente milhares de agricultores.

No entanto, a cobertura por seguros agrícolas permanece reduzida, deixando pequenos produtores sem instrumentos financeiros capazes de compensar parte das perdas provocadas pelos fenómenos climáticos.

Especialistas defendem que a expansão dos microsseguros poderá aumentar a resiliência das comunidades rurais e reduzir a dependência da ajuda humanitária após desastres naturais.

Pequenos negócios também enfrentam riscos elevados

O problema não afecta apenas o sector agrícola.

Milhares de micro e pequenas empresas operam diariamente sem qualquer seguro contra incêndios, roubos ou acidentes.

Consequentemente, qualquer incidente pode interromper a actividade económica e provocar o encerramento definitivo do negócio.

Esta situação limita igualmente o acesso ao crédito, uma vez que instituições financeiras tendem a considerar menos seguros os empreendimentos que não possuem mecanismos de protecção contra riscos.

O impacto na vida do cidadão comum

A ausência de seguros produz consequências que muitas vezes passam despercebidas.

Quando um comerciante perde toda a mercadoria num incêndio, pode levar anos até recuperar.

Entretanto, uma família sem seguro de saúde enfrenta maiores dificuldades para suportar despesas médicas inesperadas.

Por outro lado, agricultores afectados por fenómenos climáticos acabam frequentemente por reduzir a produção na campanha seguinte, comprometendo o rendimento familiar e o abastecimento alimentar local.

Assim, a falta de protecção financeira transforma acontecimentos inesperados em crises económicas prolongadas.

O desafio passa pelos microsseguros

O Banco de Moçambique considera que o desenvolvimento de produtos de seguro adaptados aos rendimentos das famílias de baixa renda poderá desempenhar um papel importante na inclusão financeira.

Os chamados microsseguros oferecem coberturas mais simples, prémios reduzidos e processos menos burocráticos.

Além disso, a utilização de plataformas digitais poderá facilitar a contratação e o pagamento destes produtos, sobretudo nas zonas rurais onde a presença física das seguradoras continua limitada.

Uma peça essencial da inclusão financeira

Especialistas internacionais defendem que a inclusão financeira não se resume ao acesso ao crédito ou aos pagamentos electrónicos.

Ela inclui igualmente instrumentos capazes de proteger famílias e empresas contra perdas inesperadas.

Sem essa componente, qualquer choque económico pode anular anos de progresso financeiro.

Análise

O Relatório de Inclusão Financeira 2025 demonstra que Moçambique avançou significativamente na expansão dos serviços financeiros digitais. Todavia, a inclusão permanecerá incompleta enquanto milhões de cidadãos continuarem sem mecanismos de protecção contra riscos económicos e climáticos.

Num país frequentemente afectado por ciclones, cheias, secas e outros eventos extremos, os seguros deixam de ser um produto reservado às grandes empresas e passam a representar uma ferramenta de estabilidade económica para agricultores, comerciantes e famílias.

O verdadeiro desafio dos próximos anos será democratizar o acesso aos seguros, tornando-os acessíveis, compreensíveis e compatíveis com a realidade financeira da maioria dos moçambicanos.

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