Após a Comissão Técnica encerrar a auscultação a cerca de 500 mil cidadãos, o jornalista alerta para os prazos estritos do calendário de 2027 e pede coerência no "espírito de reconciliação" em todo o território nacional.
O encerramento da fase de auscultações
públicas no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, conduzido pela Comissão
Técnica (COT) sob a liderança de Edson Macuacua, abriu o processo de elaboração
de propostas legislativas urgentes para o sector eleitoral em Moçambique. Numa
análise ao processo no programa «A Semana com Moyana», da MBC TV, o jornalista
Salomão Moyana alertou que a revisão das leis eleitorais deve evitar a
centralização das decisões na esfera de nove líderes partidários e salientou a
necessidade imperiosa de desarmar a linguagem política e garantir a tolerância
no terreno.
Etapa Legislativa e Prazos do Calendário Eleitoral
A COT concluiu as audições a nível nacional e
na diáspora, ouvindo perto de 500 mil pessoas, e prepara agora os rascunhos da
Lei Eleitoral, da Lei da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e da Lei do
Recenseamento Eleitoral para entrega às lideranças partidárias antes do mês de
Dezembro. Salomão Moyana considera desnecessária e inviável uma revisão
constitucional de emergência neste momento, sustentando que as disposições
constitucionais vigentes permitem realizar pleitos transparentes e que o
verdadeiro problema reside na conduta dos actores políticos e não no texto
fundamental.
O analista sublinhou que a preparação das
eleições arranca formalmente 18 meses antes do pleito de 2028 — isto é, em
Abril de 2027 —, tornando indispensável a aprovação do novo quadro legal até
Janeiro de 2027, de modo a permitir a estruturação dos órgãos eleitorais
provinciais e distritais e a realização do recenseamento piloto.
O Risco da Centralização e a Proposta de Conferência Nacional
O comentarista expressou apreensão quanto ao
afunilamento das contribuições públicas, temendo que os textos finais venham a
reflectir apenas a vontade da Conferência de Líderes, onde sobressaem as
posições da Frelimo, da Renamo, do MDM e do PODEMOS, enquanto outros
representantes partidários permanecem inactivos.
Para evitar a aprovação de "leis baseadas
na opinião de nove pessoas", Moyana propôs a realização de uma Conferência
Nacional técnica e descentralizada — com sessões de trabalho em cidades como
Maputo, Nampula, Beira, Quelimane e Lichinga —, permitindo que juristas,
académicos e a sociedade civil analisem a redacção dos artigos antes da
submissão dos diplomas à Assembleia da República. Ao justificar a sua
preocupação, afirmou: «O meu receio qual é? É que nós vamos ter leis baseadas
na opinião de nove pessoas. Isso não é bom para um país. Houve auscultação,
sim, mas depois da auscultação há um juízo que é utilizado para concatenar isto
[...] e não é muito democrático.»
Contradições no Terreno e Tolerância Política
Moyana denunciou a discrepância entre o
discurso de reconciliação mantido pelas elites políticas em ambientes formais e
a actuação repressiva observada no terreno. Como exemplo, citou o bloqueio
promovido pelas autoridades locais a manifestações do PODEMOS no distrito de
Massinga, no mesmo dia em que militantes do partido Frelimo marchavam
livremente na cidade de Inhambane, concluindo que o País ainda não assimilou o
verdadeiro espírito do diálogo inclusivo. «Nós temos que começar agora, antes
de chegar às eleições, a cultivar o espírito de reconciliação, o espírito de
tolerância, o espírito de respeitar a opinião do outro e o espaço do outro
também, e não bloquear todos os espaços porque eu posso», apelou.
O Diálogo Nacional Inclusivo foi instituído
com o objectivo de forjar consensos políticos e prevenir a eclosão de conflitos
pós-eleitorais. Com o calendário das eleições gerais de 2028 e 2029 no
horizonte, a definição das regras do recenseamento eleitoral e do modelo de
composição da CNE constitui a etapa mais crítica e urgente do processo
legislativo.

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