Jovem sul-africana quebra o silêncio e acusa líder da facção de Jerusalém da IPHC de abuso, perseguição e práticas ocultas


Joanesburgo, África do Sul
– Quase quatro anos depois de uma noite que descreve como um divisor de águas na sua vida, uma jovem sul-africana decidiu quebrar o silêncio e tornar públicas acusações graves contra o líder da facção de Jerusalém do Reino da Igreja Pentecostal Holiness Church (IPHC), a quem aponta como responsável por abuso emocional, perseguição, humilhação pública e práticas ocultas no seio da igreja.

Em relato forte e detalhado, a jovem afirma que os episódios começaram quando recusou um pedido de casamento feito pelo líder religioso. “Lembro-me dele querer casar comigo e eu recusei”, conta. A partir desse momento, segundo o seu testemunho, passou a perceber comportamentos que considera alarmantes. “Descobri que ele estava a dirigir a igreja usando bruxaria e muti”, afirma.

Expulsão violenta do complexo da igreja


O episódio mais traumático ocorreu na noite de 5 de Dezembro de 2021, no complexo da igreja. A jovem relata que foi expulsa à força por seguranças armados. “Os seus seguranças fortemente armados, que seguravam AK-47, expulsaram-me do complexo da igreja por volta das 20 horas”, denuncia.

Segundo o testemunho, encontrava-se acompanhada por outras jovens da igreja, que acabaram por entrar novamente no recinto, deixando-a sozinha do lado de fora. “Elas entraram e deixaram-me lá. Até me trouxeram a minha mala que eu tinha esquecido no carro, como quem diz: ‘pega a tua mala e vai embora’”, recorda.

A jovem diz não culpar as outras fiéis, alegando que o ambiente interno da igreja funcionava como um sistema de medo e submissão. “Naquela igreja, quando você se torna vítima de abuso, todo mundo te vê como lixo”, afirma.

Abandonada sob chuva, sem telefone

Sozinha, de noite, debaixo de chuva intensa e sem telefone, a jovem permaneceu fora do complexo até perto da meia-noite. “Lembro-me que estava a chover forte naquela noite e eu não tinha o meu telefone comigo”, conta.

Foi apenas graças à intervenção de um dos seguranças que a conhecia que conseguiu pedir ajuda. “Um dos seguranças sentiu pena de mim e emprestou-me o telefone dele para eu ligar rapidamente a alguém”, relata. A jovem ligou aos pais, que chegaram ao local apenas por volta das 02:00 da manhã do dia 6 de Dezembro.

Entretanto, segundo o relato, ao saberem que os pais tinham sido chamados, os mesmos seguranças que a haviam expulso mudaram de postura. “Vieram a correr na minha direcção a mandar-me entrar no pátio da igreja e sentar na sala da guarda, dizendo que eram ordens dele”, afirma.

Alegações de plano de sequestro e sacrifício

Mais tarde, a jovem diz ter tomado conhecimento de alegações ainda mais graves. “Foi alegado que naquele dia eu deveria ser sequestrada, violada e morta como sacrifício”, revela, sublinhando que essa informação lhe foi transmitida posteriormente.

Após os acontecimentos, afirma ter sido alvo de estigmatização sistemática dentro da igreja. “Fui ridicularizada, hiper-humilhada e chamada de todo o tipo de nomes pelos membros da igreja”, relata.

A jovem e os seus pais acabariam por ser definitivamente afastados da congregação. “Eu e os meus pais acabámos expulsos da igreja. Glória a Deus”, diz.

Acusações públicas e isolamento social

Mesmo após a saída forçada, a perseguição, segundo o seu testemunho, continuou. “Mais tarde ouvi que ele estava a pregar sobre mim na igreja, dizendo que eu estava a tentar enfeitiçá-lo”, conta.

As consequências ultrapassaram o espaço religioso e atingiram o seio familiar. “A família do meu pai deixou-nos de fora e até hoje chamam-me de bruxa. Dizem que eu ensinei bruxaria aos meus próprios pais”, afirma, acrescentando que uma tia se recusou a acreditar nela “porque não ouviu o lado da história dele”.

Depressão, ansiedade e ideação suicida

O peso das acusações, do isolamento e da humilhação teve impactos profundos na saúde mental da jovem. “Depois de tudo isso, sofri de depressão e ansiedade severa. Eu era suicida e não entendia o que tinha feito de errado, a não ser recusar casar com um monstro”, desabafa.

Quase quatro anos depois, diz ter decidido falar para romper o ciclo do silêncio. “Hoje escolhi quebrar o silêncio e recuso-me a viver sob o estigma de qualquer pessoa”, afirma.

Apesar de continuar a enfrentar hostilidade, inclusive em outros espaços religiosos, a jovem diz manter-se firme. “Se você acha que suas falsas declarações me farão sair da igreja, pense novamente. Ando de cabeça erguida porque sei que a minha verdade sobrevive às fofocas e calúnias”, declara.

Apelo às vítimas e pedido de justiça

No seu depoimento público, a jovem faz um apelo directo a outras possíveis vítimas. “Peço a todos os que sofreram qualquer tipo de abuso deste monstro para quebrarem o silêncio e o estigma”, afirma, defendendo responsabilização criminal. “Este homem deve apodrecer na cadeia”, conclui.

Ela agradece ainda o apoio recebido de amigos e familiares próximos, destacando os pais como o seu “reduto e sistema de apoio”, além de pessoas que acreditaram na sua história quando muitos optaram pelo silêncio ou pela descredibilização.

O caso reacende o debate sobre abuso de poder em ambientes religiosos, manipulação espiritual, cultura do medo e o silenciamento de vítimas, um fenómeno que atravessa fronteiras e denominações. Até ao momento, não há informação pública sobre processos judiciais em curso relacionados com estas acusações.

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