Em visita à Academia Militar Samora Machel Jr., em Nampula, o filho do primeiro Presidente de Moçambique sublinha que a natureza assimétrica do conflito em Cabo Delgado exige um trabalho aturado de logística e persuasão comunitária, apelando à lealdade e compaixão do efectivo militar.
Por: Ivone Vicente, para o Moçambique Notícias
O combate à insurgência armada e ao terrorismo que afecta a província de Cabo Delgado e outras zonas da região norte de Moçambique desde 2017 poderá prolongar-se no tempo, em virtude da difícil conjuntura económica que o País atravessa e das consequentes limitações no apoio às Forças de Defesa e Segurança (FDS) no terreno. A advertência foi lançada por Samora Machel Júnior durante uma visita realizada na última sexta-feira à Academia Militar Samora Machel, instituição de ensino superior militar que ostenta o nome do seu pai e patrono.
Desafios económicos e a natureza da guerra assimétrica
Ao debruçar-se sobre o cenário de segurança no norte do País, Samora Machel Júnior destacou que, embora o Exército moçambicano venha a demonstrar capacidade operacional e a alcançar resultados visíveis, a resolução do conflito não será imediata. A combinação entre os recursos financeiros limitados do Estado — que se encontra numa fase de recuperação económica — e o carácter não convencional da ameaça impõe exigências adicionais à actuação militar.
Aprofundando a análise sobre a complexidade da situação, o entrevistado sustentou:
Eu acredito que o País atravessa primeiro uma situação económica difícil, estamos numa fase de recuperação e isso torna complicado também o apoio às nossas forças no terreno. O nosso exército tem demonstrado capacidade, temos visto pelos resultados, mas, como sabe, isto não é uma guerra regular, não temos um exército perante nós, temos grupos de indivíduos que estão a desestabilizar uma zona e vai levar tempo porque é preciso um trabalho aturado logístico, é preciso um trabalho aturado junto das comunidades de persuasão.
A elevação dos valores éticos e do perfil do oficial militar
Perante a comunidade académica e os futuros oficiais formados na instituição, em Nampula, Samora Machel Júnior enfatizou a necessidade imperiosa de reforçar a dimensão moral e patriótica do efectivo militar. Na sua perspectiva, a eficácia do combate ao terrorismo depende não apenas do apetrechamento técnico, mas sobretudo do cultivo de princípios fundamentais como a lealdade, o amor à pátria, a elevada auto-estima e a compaixão no relacionamento com as populações protegidas.
Ao enunciar as qualidades humanas e profissionais indispensáveis a um oficial das Forças Armadas, afirmou:
Um soldado tem que ser orgulhoso da farda e da bandeira que defende, um soldado tem que ser leal à sua pátria, um soldado tem que ter auto-estima elevada, um soldado tem que ter compaixão pelos cidadãos a quem ele defende. Isto são características primárias de um oficial.
Preservação do legado de Samora Machel
A visita à instituição militar serviu igualmente de pretexto para evocar a memória e a doutrina do primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Moisés Machel. Samora Machel Júnior frisou que o patrono da Academia se orgulhava da sua condição de militar e pautava a sua acção pelo respeito estrito pelos direitos humanos, aliando o bom tratamento dos cidadãos a uma firmeza inabalável na defesa da soberania nacional.
Neste contexto, fez um apelo directo à continuidade e ao fortalecimento dessa herança histórica nas fileiras das FDS:
Samora Machel sempre primou pela defesa dos direitos dos homens, sempre primou pelo bom tratamento dos cidadãos, mas também era importante que se houvesse firmeza na defesa dos nossos interesses como país, como povo. Então nós queremos que este legado continue e seja mais firme.
O conflito armado na região norte de Moçambique teve início em Outubro de 2017, na província de Cabo Delgado, alastrando-se posteriormente a distritos vizinhos. Caracterizado por acções de desestabilização levadas a cabo por grupos extremistas contra populações civis e infra-estruturas públicas, o conflito tem exigido um esforço financeiro e logístico extraordinário por parte do Governo moçambicano. Como referido no diagnóstico de Samora Machel Júnior, a actual fase de recuperação económica do País condiciona a rapidez do fornecimento do apoio integral necessário às unidades destacadas nas frentes de combate, exigindo, simultaneamente, um trabalho persistente de aproximação e persuasão junto das comunidades locais para mitigar o impacto da insurgência.
A análise apresentada evidencia repercussões directas tanto no plano social como no sector da defesa e segurança:
Para as Populações Locais: A proliferação de acções desestabilizadoras por grupos irregulares mantém o clima de insegurança e reforça a necessidade de um trabalho aturado de persuasão e protecção comunitária, garantindo que os direitos dos cidadãos e a sua dignidade sejam salvaguardados durante as operações militares.
Para as Forças de Defesa e Segurança (FDS): As limitações económicas colocam desafios à sustentabilidade da logística de combate, tornando vital a manutenção da coesão interna, do orgulho na farda e da lealdade à pátria para assegurar a defesa firme dos interesses de Moçambique.
Para as Instituições de Ensino Militar: A Academia Militar Samora Machel reafirma o seu papel estratégico na transmissão de valores éticos e patrióticos, preparando futuros oficiais capazes de responder com firmeza e compaixão aos desafios de segurança da Nação.
🇲🇿

0 Comentários
O que você achou desta matéria?