Decano do jornalismo moçambicano repõe a cronologia da insurgência iniciada em 2017, condena o "espectáculo de insultos" nos debates televisivos e apela à intervenção das entidades reguladoras.
A veiculação de declarações infundadas sobre
as origens do terrorismo na província de Cabo Delgado e o aumento do tom agressivo verbal em painéis de análise política televisiva motivaram uma
dura reacção do jornalista Salomão Moyana. No programa «A Semana com Moyana»
(MBC TV), o analista desmentiu categoricamente as declarações da comentadora
Artemisa Magaia — que atribuiu ao antigo Presidente da República, Filipe Nyusi,
a responsabilidade pela introdução do terrorismo no País — e exortou o Conselho
Superior da Comunicação Social a intervir contra a degradação ética do debate
público.
Reposição da Verdade Histórica sobre a Insurgência
Salomão Moyana reputou de "absolutamente
falsa" a tese de que o antigo Chefe de Estado introduziu o terrorismo e
recrutou o exército do Ruanda para combater a sua própria criação. «Não é
verdade que o Filipe Nyusi foi trazer o terrorismo para Moçambique. O
terrorismo é um fenómeno universal que ataca vários países sem que tenha sido
trazido por alguém», afirmou. O jornalista recordou que o primeiro ataque
terrorista ocorreu a 5 de Outubro de 2017 na vila de Mocímboa da Praia, sendo o
desfecho de um processo gradual de radicalização ideológica e religiosa
promovido entre 2006 e 2010 por organizações que recrutavam jovens moçambicanos
para centros de doutrinação no estrangeiro.
A Convocação de Forças Internacionais
O comentarista enfatizou que a intervenção do
contingente militar do Ruanda e da Missão da SADC em Moçambique (SAMIM), em
2021, derivou de decisões soberanas do Governo para libertar cinco sedes
distritais que se encontravam sob ocupação dos grupos armados (Mocímboa da
Praia, Palma, Muidumbe, Macomia e Quissanga). Moyana criticou o silêncio de
entidades estatais e governamentais perante o "assassinato de
carácter" de antigos dirigentes e alertou para os riscos de deformação da
memória histórica colectiva.
Violência Verbal e Degradação nos Debates Televisivos
Moyana manifestou profunda preocupação com a
disseminação de "debates selváticos" nas emissoras televisivas do
País, assinalados por agressões verbais, faltas de respeito interpessoais e
condutores de programas que incentivam a crispação para obter audiência fácil.
«É preciso uma ordem nas nossas televisões. É preciso uma ordem não no sentido
de implantar a censura, mas no sentido de impor a decência no debate, a higiene
na linguagem e uma limpeza rigorosa na maneira como as pessoas se expressam»,
defendeu. O decano denunciou a presença de comentadores e apresentadores sem
preparação técnica e ética, instando o Conselho Superior da Comunicação Social
e os sindicatos de jornalistas a promoverem acções de fiscalização e formação
deontológica.
A insurgência armada em Cabo Delgado teve
início em 2017 e atingiu o ponto crítico em 2021 com a tomada de vilas
estratégicas, situação revertida após o destacamento de tropas aliadas do
Ruanda e da SADC. Em simultâneo, o panorama mediático moçambicano tem registado
uma proliferação de programas nocturnos de comentário político marcados por
linguagem ofensiva e ausência de moderação jornalística.
A disseminação de acusações falsas sobre a
segurança nacional desorienta a opinião pública e desrespeita o sofrimento das
vítimas da insurgência. Por outro lado, a permissividade perante a violência
verbal nos canais de televisão degrada a cultura democrática e enfraquece o
papel educativo dos meios de comunicação social.

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